A Amazônia não é apenas o “pulmão do mundo”, mas um ecossistema vivo que desafia e inspira quem a conhece de perto. Com a crise climática se agravando e o desmatamento avançando, surge uma pergunta essencial: como podemos repensar nossa relação com a natureza para agir de forma mais responsável e transformadora? Um estudo conduzido por pesquisadoras da FGV EAESP revela que experiências diretas e profundas na floresta podem provocar mudanças existenciais capazes de influenciar tanto a vida pessoal quanto a prática profissional de líderes e especialistas em sustentabilidade.
As pesquisadoras Ana Carolina Aguiar e Ann Cunliffe, publicaram o estudo na prestigiada revista Human Relations. As autoras entrevistaram profissionais latino-americanos de sustentabilidade com pelo menos cinco anos de experiência, focando em oito deles que viveram ou trabalharam na Amazônia. Utilizando a Análise Fenomenológica Interpretativa (sigla IPA para o termo em inglês) para destacar a experiência vivida dos entrevistados, e as ideias do filósofo francês Merleau-Ponty sobre como estamos sempre em relação com a natureza e não apartados dela, as pesquisadoras investigaram como as sensações corporais e emocionais vivenciadas pelos profissionais na floresta Amazônica alteraram sua compreensão sobre a natureza e seu papel na preservação ambiental.
O estudo revelou que o contato direto com a Amazônia muda radicalmente a forma de entender a natureza.
Ao enfrentar a imprevisibilidade do clima, a força dos rios e a presença da vida selvagem, os participantes sentiram vulnerabilidade e respeito profundos. Essa experiência abalou a ideia de que o ser humano está acima e em controle da natureza, substituindo-a por um sentido visceral de entrelaçamento e interdependência.
Muitos descreveram a sensação de que “o corpo sabe que é parte da natureza”: queimadas, secas e enchentes eram sentidas fisicamente e emocionalmente, como se o sofrimento da floresta fosse também o deles. Essa percepção despertou um novo senso de responsabilidade — não mais de “gestores da natureza” ou até de “salvadores”, mas de parceiros dela.
No entanto, ao retornar ao ambiente corporativo, esses profissionais enfrentam dificuldades para traduzir suas experiências em políticas e práticas organizacionais. As pressões por lucro e crescimento rápido muitas vezes colidem com a visão mais integradora e cuidadosa com a natureza. Isso cria um desafio: como influenciar outros profissionais em contextos empresariais a repensarem sua relação com a natureza e criarem práticas mais responsáveis e sustentáveis?
O estudo sugere que praticar a sustentabilidade vai muito além de adotar tecnologias verdes ou políticas de responsabilidade social. É necessária uma transformação mais profunda, ontológica, baseada na compreensão não apenas cognitiva, mas sensível (corporificada) de que estamos inseridos e interligados à natureza. Merleau-Ponty criticou dualismos como sujeito/objeto, mente/corpo, humano/natureza, argumentando que temos um vínculo vivo com a natureza. Em outras palavras, somos um com a natureza através de nossos corpos e sentidos – somos capazes de sentir o Rio, a vibração da Floresta e chorar por sua destruição e morte. Sem romantismos, heroísmos e principalmente sem ilusão de controle. Isso exige que profissionais, gestores e líderes da sustentabilidade encurtem as distâncias de suas próprias dicotomias.
Por isso, as pesquisadoras recomendam:
- Criar oportunidades de imersão na natureza para profissionais e tomadores de decisão;
- Estimular narrativas pessoais que transmitam a experiência sensorial e emocional com o meio ambiente;
- Adotar modelos, políticas e práticas de gestão organizacional que entenda a natureza como agente parceira, e não como objeto explorado.
O “chamado do Rio” — metáfora usada no título do artigo para essa conexão profunda — nos convida a lembrar que a natureza se comunica o tempo todo – às vezes de maneira mais intensa e agressiva, às vezes com encanto e magia. Precisamos chegar mais perto e escutar, com todo o corpo, antes que seja tarde demais.
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