A remuneração dos CEOs está frequentemente no centro de debates sobre justiça, desempenho e responsabilidade corporativa. Bônus elevados nem sempre são bem compreendidos pelo mercado, o que gera questionamentos por parte de investidores, conselhos e da sociedade. Um estudo recente, no entanto, mostra que pagamentos mais altos podem refletir não excessos, mas sim um ambiente de informação mais transparente, no qual o desempenho do executivo é melhor avaliado e reconhecido.
A pesquisa foi conduzida por Xia Li, Jairaj Gupta e André Aroldo Freitas De Moura, da FGV EAESP, e publicada na Review of Quantitative Finance and Accounting. Os autores analisaram dados de empresas de capital aberto dos Estados Unidos entre 1992 e 2022. O foco foi a chamada remuneração anormal dos CEOs, isto é, a parcela do pagamento que difere do valor esperado com base em fatores observáveis, como experiência, porte da empresa e indicadores econômicos.
Remuneração dos CEOs: quando mais informação significa mais reconhecimento
Os resultados mostram que a remuneração dos CEOs não depende apenas de contratos formais ou metas financeiras pré-estabelecidas. Ela também é influenciada pela qualidade das informações disponíveis sobre a empresa. Quando os analistas financeiros fazem previsões mais precisas sobre os lucros, com menos erros, menor divergência entre estimativas e menos surpresas negativas, os CEOs tendem a receber maior remuneração variável.
Na prática, isso significa que executivos são mais recompensados quando atuam em ambientes informacionais mais claros e previsíveis. A transparência facilita o acompanhamento do desempenho, reduz incertezas e permite que conselhos e investidores reconheçam, de forma mais precisa, o esforço e as decisões estratégicas do CEO. Assim, pagamentos mais altos, nesse contexto, refletem reconhecimento ex post, e não distorções ou falhas de governança.
O papel dos analistas financeiros
Os analistas financeiros atuam como intermediários entre empresas e investidores. Ao interpretar resultados, avaliar decisões estratégicas e projetar lucros futuros, eles ajudam a reduzir a assimetria de informação, ou seja, a diferença entre o que os executivos sabem e o que o mercado consegue observar. Esse processo melhora a qualidade do monitoramento externo e influencia decisões relevantes dos conselhos, incluindo aquelas relacionadas à remuneração dos CEOs.
O estudo mostra ainda que essa relação positiva entre previsões mais favoráveis e maior remuneração variável é mais forte em empresas com mecanismos de monitoramento externo mais robustos. Isso inclui organizações com melhores práticas de governança corporativa, maior presença de investidores institucionais, maior exposição a aquisições e maior sensibilidade a riscos políticos. Nesses ambientes, a avaliação dos analistas tem peso maior na forma como o desempenho do CEO é percebido e recompensado.
A pesquisa ajuda a esclarecer resultados contraditórios encontrados em estudos anteriores sobre remuneração dos CEOs. Ao focar na remuneração anormal, os autores mostram que previsões mais precisas dos analistas estão associadas a maior remuneração variável, pois refletem um ambiente de informação mais favorável e melhor alinhamento entre executivos e acionistas.
Para conselhos de administração, os resultados indicam que dados produzidos por analistas podem ser uma ferramenta relevante no desenho de estruturas de remuneração mais eficazes. Para investidores, o estudo reforça a importância da transparência como elemento central na avaliação do desempenho executivo. No fim, empresas que investem em divulgação de qualidade tendem não apenas a reduzir incertezas, mas também a recompensar melhor lideranças que efetivamente geram valor.
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