A tese por artigos em administração pública ganha espaço no Brasil e levanta um debate importante sobre qualidade e formação acadêmica. Tradicionalmente, o doutorado culmina em um trabalho único e extenso, que demonstra a capacidade do pesquisador de conduzir um estudo independente. No entanto, cresce o interesse por um modelo que organiza a tese como um conjunto de artigos científicos publicáveis. A mudança promete mais agilidade e impacto, mas também impõe novos desafios.
Um estudo conduzido por Rafael Viegas, Fernando Abrucio, Marco Antonio Carvalho Teixeira e Silvia Mongelós, da FGV EAESP, e publicado na Revista de Administração, Ensino e Pesquisa, analisou 139 teses defendidas entre 2014 e 2022 em programas brasileiros de administração pública. Os pesquisadores coletaram os dados no banco de teses da Capes e examinaram como cada trabalho articulou teoria, métodos e escolhas conceituais. Do total, 17 teses adotaram o formato por artigos.
Tese por artigos em administração pública
Os dados mostram os benefícios do modelo. Primeiro, o doutorando pode publicar resultados antes mesmo de concluir o curso. Assim, amplia sua visibilidade, fortalece o currículo e aumenta suas chances em processos seletivos acadêmicos. Além disso, aprende a dialogar com pareceristas e editores, o que qualifica sua escrita e sua capacidade de argumentação.
O formato também oferece flexibilidade. O pesquisador pode direcionar cada artigo a públicos e revistas diferentes, aprofundando aspectos específicos do tema. Sendo assim, consegue dialogar com debates variados e inserir seu trabalho em redes de pesquisa mais amplas.
Entretanto, os desafios chamam atenção. A maioria das 17 teses analisadas não integrou de forma consistente os fundamentos teóricos e as estratégias metodológicas. O problema se intensificou quando os autores combinaram entrevistas, estudos de caso e análises estatísticas no mesmo projeto. Sem uma base conceitual clara, os artigos até funcionam isoladamente, mas o conjunto perde força como tese.
Coerência teórica e formação do pesquisador
Outro achado relevante envolve a clareza das escolhas científicas. Grande parte das teses priorizou abordagens voltadas à mensuração e à generalização de resultados. Ainda assim, muitos trabalhos não explicitaram com precisão por que adotaram determinado caminho metodológico nem quais limites essa decisão impôs às conclusões. Como consequência, o poder explicativo do conjunto diminuiu.
O estudo também alerta para a pressão por produtividade. Quando o doutorando foca apenas na publicação rápida de artigos, corre o risco de deixar em segundo plano a reflexão mais ampla que o doutorado deve estimular. Afinal, a formação de um pesquisador exige tempo para testar ideias, revisar hipóteses e amadurecer conceitos.
Os autores não defendem o abandono da tese por artigos. Ao contrário, reconhecem suas vantagens e destacam seu potencial para ampliar o impacto da pesquisa brasileira. No entanto, reforçam que programas de pós-graduação precisam preparar melhor seus alunos para esse formato. Planejamento rigoroso, coerência entre teoria e método e acompanhamento próximo da orientação fazem toda a diferença.
Em síntese, a tese por artigos em administração pública pode fortalecer a carreira do doutorando e acelerar a circulação do conhecimento. Contudo, só alcança esse objetivo quando preserva o núcleo formativo do doutorado: desenvolver a capacidade de analisar problemas complexos com consistência teórica e rigor metodológico.
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