Por Gabriel Cogo
As organizações inovadoras do início deste século eram reconhecidas não apenas por seus avanços tecnológicos, mas por serem ambientes de trabalho desenhados para inspirar inovação, reduzir a burocracia e transformar a rotina laboral. O objetivo era converter o trabalho em um espaço onde todos se sentissem capazes de empreender e criar algo que mudaria o mundo. Esse ambiente agradável, que atraía talentos globais com a promessa de romper mercados arcaicos, foi a imagem vendida pelas grandes empresas de tecnologia (“Big Techs”) por mais de duas décadas. Contudo, essa não é definitivamente a realidade que observamos hoje na maioria das organizações.
O cenário atual é marcado por uma volatilidade alarmante na gestão de talentos, evidenciada pelos dados recentes do Layoff Tracker. Em 2025, o total de demissões na indústria tecnológica chegou a impressionantes 246 mil pessoas. E o ano de 2026 não sinaliza uma trégua: já contabilizamos mais de 39 mil profissionais desligados apenas nos primeiros meses. Esse movimento de “sanfona” na força de trabalho revela uma gestão indecisa e insegura, que tenta compensar a falta de planejamento de longo prazo com cortes de custos imediatistas, muitas vezes justificados pela adoção apressada de Inteligência Artificial.
A IA é, sem dúvida, uma ferramenta com potencial transformacional enorme. Entretanto, é crucial lembrar que ela é apenas isso: uma ferramenta. O ano de 2026 tem demonstrado que inúmeras iniciativas de adoção de IA nas empresas foram, para dizer o mínimo, precipitadas. Relatórios como o do Harvard Business Review (Ranganathan e Ye, 2026) já apontam que a IA não necessariamente reduz o trabalho, mas o intensifica, e casos de desastres no uso da tecnologia se acumulam. Mais alarmante ainda é o relatório do MIT de julho de 2025, indicando que 95% dos projetos de IA acabam sendo considerados fracassos. Ao olharmos mais de perto, notamos que a IA tem obtido retornos interessantes na automação de processos de back-office, mas resultados péssimos em áreas críticas como vendas e marketing.
É neste ponto que a falta de estratégia cobra seu preço mais alto. Um fenômeno recente que me chamou a atenção é o número significativo de profissionais de programação e engenharia de computação que foram recontratados para corrigir códigos gerados por IA — o chamado “vibe coding”. Muitas empresas tomaram a decisão simplista de substituir programadores experientes por IA, acreditando na eficiência imediata. Menos de um ano depois, após enfrentarem inúmeros problemas de arquitetura, segurança e escalabilidade, foram obrigadas a recontratar estes mesmos programadores — muitas vezes pagando salários 20% a 30% maiores.
Esse ciclo de demissão e recontratação é a definição clássica de dívida técnica aplicada à gestão. Ao demitir seniores para “economizar”, a empresa cria um passivo invisível: a perda de conhecimento tácito sobre o sistema, a quebra da cultura de engenharia e a introdução de código de baixa qualidade (gerado por IA ou juniores sem supervisão). Quando o sistema inevitavelmente falha, o “prejuízo” é pago na forma de recontratações inflacionadas e perda de produtividade, sem contar os inúmeros clientes insatisfeitos com estas mudanças. É o custo de tratar programadores como commodity e não como o núcleo intelectual do negócio.
Frequentemente, ouço de alunos em sala de aula a frase: “Professor, a gerência da empresa quer implementar projetos de IA no negócio”. Minha resposta invariavelmente é: “O que poderia ser feito melhor na sua empresa?”. A tecnologia deve servir para potencializar aquilo em que já somos bons. De nada adianta a tecnologia mais avançada se não temos ideia de para onde estamos indo. O que falta neste debate sobre a IA não é discutir a tecnologia em si, mas falar sobre gestão.
Um exemplo emblemático de gestão que foi na contramão dessa loucura é o da Dell. Em 2013, a empresa saiu do mercado de ações americano porque a gestão entendeu que era impossível competir em um ciclo de inovação que exigia o lançamento de uma nova linha de produtos a cada ano para satisfazer investidores. Muitos viram isso como um prelúdio do fracasso. Não foi o que aconteceu. A Dell se reestruturou longe dos holofotes de Wall Street, deu tempo ao seu R&D para trabalhar com calma e, em 2018, voltou à bolsa renovada. Nos últimos 5 anos, suas ações subiram quase 200%. Essas decisões mostram uma gestão que ouve as pessoas de dentro, pensa os passos com calma e acredita no futuro da própria companhia.
Infelizmente, estamos vendo cada vez menos disso. O padrão atual são grandes ondas de demissão, seguidas por investimentos e reinvestimentos em IA com planejamento mínimo. Executivos dessas empresas parecem mais preocupados em investir dinheiro em seus próprios bônus e em stock buybacks — que visam inflar artificialmente o preço das ações no curto prazo — do que na sustentabilidade do negócio. Em cerca de três anos, a IA saiu de uma ferramenta exploratória interessante para se tornar praticamente obrigatória nas estratégias corporativas. E uma grande maioria não a adotou como um investimento ligado aos planos reais da empresa, mas como uma resposta à pressão de mercado para mostrar ao mundo que estava “à frente” da concorrência.
Na minha visão, as empresas que irão não apenas sobreviver, mas evoluir e liderar nos próximos 5 anos, são aquelas dispostas a olhar para a tecnologia com sobriedade: como algo a se aprender e monitorar, identificando oportunidades onde ela possa facilitar objetivos claros e pré-existentes. Mas, e aqui faço minha previsão polêmica, os grandes vencedores serão aqueles que protegerão os talentos que têm. Serão as empresas que valorizam o conhecimento profundo da capacidade e resiliência de seu próprio negócio e que praticam uma gestão de longo prazo, rejeitando os ganhos cínicos e ilusórios do curto prazo. Que sigamos arrojados e curiosos, aprendendo sobre novas tecnologias, mas que façamos gestão “à moda antiga”: sem seguir o mercado por medo, mas guiados pela convicção de que sabemos exatamente que caminho tomar.
fontes
https://mlq.ai/media/quarterly_decks/v0.1_State_of_AI_in_Business_2025_Report.pdf
https://www.investopedia.com/articles/markets/110915/dell-stock-doesnt-exist-here-why.asp
https://www.cio.com/article/190888/5-famous-analytics-and-ai-disasters.html
https://www.schwab.com/learn/story/how-stock-buybacks-work-and-why-they-matter
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