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O Retorno da “Velha” Gestão: Por que as Techs estão pagando o preço da falta de visão de longo prazo

31 de março de 2026
O Retorno da “Velha” Gestão: Por que as Techs estão pagando o preço da falta de visão de longo prazo

Por Gabriel Cogo

As organizações inovadoras do início deste século eram reconhecidas não apenas por seus avanços tecnológicos, mas por serem ambientes de trabalho desenhados para inspirar inovação, reduzir a burocracia e transformar a rotina laboral. O objetivo era converter o trabalho em um espaço onde todos se sentissem capazes de empreender e criar algo que mudaria o mundo. Esse ambiente agradável, que atraía talentos globais com a promessa de romper mercados arcaicos, foi a imagem vendida pelas grandes empresas de tecnologia (“Big Techs”) por mais de duas décadas. Contudo, essa não é definitivamente a realidade que observamos hoje na maioria das organizações.

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O cenário atual é marcado por uma volatilidade alarmante na gestão de talentos, evidenciada pelos dados recentes do Layoff Tracker. Em 2025, o total de demissões na indústria tecnológica chegou a impressionantes 246 mil pessoas. E o ano de 2026 não sinaliza uma trégua: já contabilizamos mais de 39 mil profissionais desligados apenas nos primeiros meses. Esse movimento de “sanfona” na força de trabalho revela uma gestão indecisa e insegura, que tenta compensar a falta de planejamento de longo prazo com cortes de custos imediatistas, muitas vezes justificados pela adoção apressada de Inteligência Artificial.

A IA é, sem dúvida, uma ferramenta com potencial transformacional enorme. Entretanto, é crucial lembrar que ela é apenas isso: uma ferramenta. O ano de 2026 tem demonstrado que inúmeras iniciativas de adoção de IA nas empresas foram, para dizer o mínimo, precipitadas. Relatórios como o do Harvard Business Review (Ranganathan e Ye, 2026) já apontam que a IA não necessariamente reduz o trabalho, mas o intensifica, e casos de desastres no uso da tecnologia se acumulam. Mais alarmante ainda é o relatório do MIT de julho de 2025, indicando que 95% dos projetos de IA acabam sendo considerados fracassos. Ao olharmos mais de perto, notamos que a IA tem obtido retornos interessantes na automação de processos de back-office, mas resultados péssimos em áreas críticas como vendas e marketing.

É neste ponto que a falta de estratégia cobra seu preço mais alto. Um fenômeno recente que me chamou a atenção é o número significativo de profissionais de programação e engenharia de computação que foram recontratados para corrigir códigos gerados por IA — o chamado “vibe coding”. Muitas empresas tomaram a decisão simplista de substituir programadores experientes por IA, acreditando na eficiência imediata. Menos de um ano depois, após enfrentarem inúmeros problemas de arquitetura, segurança e escalabilidade, foram obrigadas a recontratar estes mesmos programadores — muitas vezes pagando salários 20% a 30% maiores.

Esse ciclo de demissão e recontratação é a definição clássica de dívida técnica aplicada à gestão. Ao demitir seniores para “economizar”, a empresa cria um passivo invisível: a perda de conhecimento tácito sobre o sistema, a quebra da cultura de engenharia e a introdução de código de baixa qualidade (gerado por IA ou juniores sem supervisão). Quando o sistema inevitavelmente falha, o “prejuízo” é pago na forma de recontratações inflacionadas e perda de produtividade, sem contar os inúmeros clientes insatisfeitos com estas mudanças. É o custo de tratar programadores como commodity e não como o núcleo intelectual do negócio.

Frequentemente, ouço de alunos em sala de aula a frase: “Professor, a gerência da empresa quer implementar projetos de IA no negócio”. Minha resposta invariavelmente é: “O que poderia ser feito melhor na sua empresa?”. A tecnologia deve servir para potencializar aquilo em que já somos bons. De nada adianta a tecnologia mais avançada se não temos ideia de para onde estamos indo. O que falta neste debate sobre a IA não é discutir a tecnologia em si, mas falar sobre gestão.

Um exemplo emblemático de gestão que foi na contramão dessa loucura é o da Dell. Em 2013, a empresa saiu do mercado de ações americano porque a gestão entendeu que era impossível competir em um ciclo de inovação que exigia o lançamento de uma nova linha de produtos a cada ano para satisfazer investidores. Muitos viram isso como um prelúdio do fracasso. Não foi o que aconteceu. A Dell se reestruturou longe dos holofotes de Wall Street, deu tempo ao seu R&D para trabalhar com calma e, em 2018, voltou à bolsa renovada. Nos últimos 5 anos, suas ações subiram quase 200%. Essas decisões mostram uma gestão que ouve as pessoas de dentro, pensa os passos com calma e acredita no futuro da própria companhia.

Infelizmente, estamos vendo cada vez menos disso. O padrão atual são grandes ondas de demissão, seguidas por investimentos e reinvestimentos em IA com planejamento mínimo. Executivos dessas empresas parecem mais preocupados em investir dinheiro em seus próprios bônus e em stock buybacks — que visam inflar artificialmente o preço das ações no curto prazo — do que na sustentabilidade do negócio. Em cerca de três anos, a IA saiu de uma ferramenta exploratória interessante para se tornar praticamente obrigatória nas estratégias corporativas. E uma grande maioria não a adotou como um investimento ligado aos planos reais da empresa, mas como uma resposta à pressão de mercado para mostrar ao mundo que estava “à frente” da concorrência.

Na minha visão, as empresas que irão não apenas sobreviver, mas evoluir e liderar nos próximos 5 anos, são aquelas dispostas a olhar para a tecnologia com sobriedade: como algo a se aprender e monitorar, identificando oportunidades onde ela possa facilitar objetivos claros e pré-existentes. Mas, e aqui faço minha previsão polêmica, os grandes vencedores serão aqueles que protegerão os talentos que têm. Serão as empresas que valorizam o conhecimento profundo da capacidade e resiliência de seu próprio negócio e que praticam uma gestão de longo prazo, rejeitando os ganhos cínicos e ilusórios do curto prazo. Que sigamos arrojados e curiosos, aprendendo sobre novas tecnologias, mas que façamos gestão “à moda antiga”: sem seguir o mercado por medo, mas guiados pela convicção de que sabemos exatamente que caminho tomar.

fontes

https://mlq.ai/media/quarterly_decks/v0.1_State_of_AI_in_Business_2025_Report.pdf

https://gizmodo.com/after-ai-led-to-layoffs-coders-are-being-hired-to-fix-vibe-coded-screwups-2000657915

https://www.investopedia.com/articles/markets/110915/dell-stock-doesnt-exist-here-why.asp

https://www.cio.com/article/190888/5-famous-analytics-and-ai-disasters.html

https://www.schwab.com/learn/story/how-stock-buybacks-work-and-why-they-matter

https://www.trueup.io/layoffs

 

* Os artigos publicados na seção Coluna do Blog Impacto refletem exclusivamente a opinião de seus autores, não representando, necessariamente, a visão da instituição.

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