As redes sociais passaram a influenciar diretamente como a sociedade interpreta decisões tomadas por organizações públicas e privadas. Nesse ambiente, memes se destacam por sua rápida circulação, linguagem simples e forte apelo emocional. Uma pesquisa recente mostra que esse tipo de conteúdo pode ter um papel relevante para justificar práticas organizacionais antiéticas, ao transformar ações controversas em narrativas fáceis de aceitar. Assim, decisões complexas, que exigiriam debate público e avaliação moral, acabam sendo absorvidas de forma superficial e pouco crítica.
O estudo foi realizado por Fernando Vianna, Rafael Alcadipani (FGV EAESP), Marcos Barros e Gustavo Matarazzo, e publicado na revista internacional Business Ethics Quarterly.
Para entender como ocorre esse processo de justificação, os pesquisadores analisaram memes que circularam no Instagram após três grandes operações policiais realizadas entre 2021 e 2022 no Rio de Janeiro. Ao todo, os pesquisadores coletaram 495 memes. Desses, seis, com alto nível de engajamento, foram analisados em profundidade, considerando imagens, textos, comentários e o contexto social e midiático em que estavam inseridos.
Como memes ajudam a justificar práticas organizacionais antiéticas
A pesquisa buscou responder à seguinte pergunta: como memes nas redes sociais ajudam a justificar ações organizacionais que envolvem dilemas éticos sobre vida e morte?
Os resultados mostram que os memes constroem narrativas que reduzem o questionamento ético por meio de três estratégias principais. A primeira consiste em negar o valor da vida. Isso desconsidera narrativas opostas de direitos humanos em relação à ação policial e questiona sua autoridade, desacreditando-a e ridicularizando-a ao sugerir sua ignorância sobre o assunto.
Assim, a segunda estratégia é estabelecer atores que merecem a morte. Esse mecanismo cria uma divisão, atribuindo às vítimas a culpa pelas próprias consequências e reforçando estereótipos sociais que tornam a ação organizacional mais fácil de justificar publicamente. Por fim, a terceira é defender a polícia como executora da morte. Ela exalta a organização responsável pela ação, retratando-a como competente, heroica e moralmente correta. Embora o estudo use operações policiais como exemplo empírico, os autores destacam que esse padrão pode existir em outros contextos organizacionais.
Além disso, o estudo mostra que memes não apenas normalizam práticas organizacionais antiéticas, mas também ajudam a torná-las socialmente aceitáveis. Portanto, ao priorizar humor, emoção e rapidez, esses conteúdos simplificam debates complexos e enfraquecem a reflexão crítica da sociedade.
Por fim, os autores chamam atenção para a responsabilidade das plataformas digitais e das grandes empresas de tecnologia, que permitem a ampla circulação desse tipo de conteúdo. Ao mesmo tempo, a pesquisa reconhece que as redes sociais também podem ser usadas para ampliar o debate público, desde que estimulem reflexão, contexto e pluralidade de vozes.
Leia o artigo na íntegra.
Nota: alguns artigos podem apresentar restrições de acesso.













