Marcus Lavorato, Diretor de Pesquisa na Charisma e aluno do Doutorado Profissional em Administração da FGV EAESP.
Um Mercado Hipnotizado
Nos últimos anos, a expressão inteligência artificial (AI) tornou-se praticamente obrigatória no discurso dos CEOs. Basta acompanhar relatórios e teleconferências de resultados para notar como os discursos foram inundados pelo tema. Essas ondas de atenção sobre tecnologias não são inéditas, neste século já vivenciamos movimentos como o das “ponto.com”, web 2.0, Big Data e Metaverso, para citar alguns exemplos. A diferença agora é que, desde o lançamento do ChatGPT no final de 2022, a inteligência artificial capturou de forma direta a atenção de todos os stakeholders das corporações reforçando a percepção de que nenhuma área permanecerá imune às mudanças.
O mercado, por sua vez, não resiste a uma boa narrativa: empresas buscam incorporar o discurso de AI para elevar seu valor de mercado, enquanto investidores se apressam para incluir em seus portfólios aquelas que prometem liderar essa nova corrida. Mas até que ponto a história sobre IA realmente se traduz em valor para as empresas e quando ela é apenas papo fiado?
Evidências: quando a história vira realidade (ou não)
Um estudo de 2025 lança luz sobre essa separação entre uma boa história de um fato. Em artigo recente na International Review of Financial Analysis, Basnet e outros pesquisadores analisaram divulgações de AI nos formulários 10-k (equivalentes aos formulários de referência das empresas listadas na B3) e categorizaram as menções em três tipo: acionáveis – quando a empresa detalha planos concretos de implementar AI; especulativas – com menções vagas, genéricas e sem plano de ação; e irrelevantes – citações de AI sem relação direta com o negócio.
O resultado não é surpreendente, somente divulgações acionáveis de AI geraram benefícios significativos de valor, especialmente após o primeiro ano em que foram citados. Já as menções especulativas ou irrelevantes tiveram impacto nulo sobre o valor da firma – o mercado praticamente ignora. Em outras palavras, existe na média uma diferenciação por parte dos investidores entre um plano consistente de uma simples carta de intenções sem fundamento.
Mais revelador ainda, o estudo observou que empresas com divulgações substantivas de AI tendem a registrar aumentos posteriores em gastos de P&D e depósitos de patentes. Ou seja, quando a empresa anuncia algo concreto em AI, normalmente isso vem acompanhado de investimento real em inovação, um sinal de que a narrativa tinha substância por trás. Esses investimentos adicionais acabam levando a ganhos de produtividade e em melhorias nas métricas de geração de valor. Dessa foram a mensagem é clara: ação gera valor, discurso vazio não.
E como separar o ruído?
No auge de todo ciclo de hype, há um perigo de afrouxamento crítico: investidores começam a aceitar mais promessas vagas como se fossem estratégias sólidas. É o risco de confundir barulho com sinal. Quando cada release corporativo vira um bingo de buzzwords, é hora de dobrar a cautela. Narrativas servem para projetar o futuro, mas também podem ser usadas para encobrir resultados fracos ou falta de rumo.
Como o investidor pode se proteger?
Exija detalhes concretos: Quando a empresa anuncia alguma iniciativa de AI, há um plano verificável? Por exemplo, contratação de especialistas, metas de implantação com resultados observáveis, orçamentos? Narrativas genéricas do tipo “estamos explorando AI” não valem nada sem cronogramas e investimentos divulgados;
Verifique a trajetória e o contexto: uma empresa com histórico de inovação tem mais credibilidade ao anunciar alguma iniciativa de AI do que um negócio decadente buscando um último suspiro. Desconfie de narrativas que surgem do nada;
Observe resultados tangíveis: Em poucos trimestres, a conversa de AI precisa começar a apresentar métricas reais – ganho de eficiência, novos produtos, crescimento de receita ou margem. Se passar um tempo e nada disso se materializar, provavelmente era só discurso;
Lembre-se do ciclo: Toda tecnologia passa pelo pico das expectativas e depois pelo vale da desilusão. Empresas que realmente extraem valor da AI serão aquelas que sobrevivem ao passar do incremento inicial, demonstrando valor concreto quando a poeira baixar.
Em resumo, a inteligência artificial pode ser de fato transformadora e gerar novas líderes de mercado, mas investidores sêniores sabem que nem todo mundo que fala terá capacidade de entregar. Separar visões genuínas de papo fiado nunca foi tão crucial.
Texto originalmente publicado no blog Gestão e Negócios do Estadão, uma parceria entre a FGV EAESP e o Estadão, reproduzido na íntegra com autorização.
Os artigos publicados na coluna Blog Gestão e Negócios refletem exclusivamente a opinião de seus autores, não representando, necessariamente, a visão da Fundação Getulio Vargas ou do jornal Estadão













