Por: Antonio Gelis Filho
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, tem reiterado que a manutenção da taxa Selic em patamares elevados — hoje em 14,75% ao ano, a maior desde 2006 — responde a um cenário externo marcado por incertezas geopolíticas. A guerra tarifária liderada pelos Estados Unidos, apontada como principal fator na determinação dos preços de mercado, e os conflitos no Oriente Médio funcionariam como justificativas para uma política monetária contracionista prolongada. O argumento é tecnicamente honesto, mas incompleto. O que se denomina “fator externo” é, na sua essência, um fator interno — a disfuncionalidade institucional dos próprios Estados Unidos.
A taxa de juros do Fed sempre foi um indicador da política monetária dos EUA. Nos últimos anos, tornou-se também um termômetro da estabilidade institucional americana. Pela primeira vez em mais de trinta anos, dois membros do Conselho de Governadores do Fed votaram contra a decisão majoritária sobre a taxa de juros — ambos indicados por Donald Trump, em alinhamento com as pressões públicas da Casa Branca por cortes imediatos. Trump chegou a chamar o presidente do Fed de “estúpido” e “atrasado” por não ceder às suas demandas. O que antes era uma disputa técnica passou a ser uma disputa política aberta, transmitida ao mundo em tempo real.
Esse ruído institucional não é mais conjuntural. Ele é estrutural. Trump acentuou uma tendência que já existia. Mesmo o Prêmio Nobel da Paz, Barack Obama, presidiu durante o lançamento de dezenas de milhares de bombas americanas sobre o Oriente Médio. Além disso, todos sabemos como terminou a gestão da crise na Ucrânia por Biden. Trump trouxe um conceito de emergência econômica bastante alargado, misturando defesa militar e economia, falando em soberania — e, se essa interpretação for legitimada, a instabilidade que já se vive passa a ser a regra formalizada pela lei americana. A política tarifária imposta unilateralmente, sem autorização do Congresso, por meio de uma lei de 1977, e agora questionada perante a Suprema Corte, é menos um episódio comercial do que um teste sobre os limites do poder executivo. O que os mercados emergentes enfrentam não é a volatilidade do ciclo econômico americano, mas a volatilidade do seu arranjo democrático. Será que um próximo presidente reverterá essas decisões?
O dólar, ainda hegemônico, caiu ao menor nível de participação nas reservas internacionais em décadas, enquanto o ouro ultrapassou o euro como reserva global — sinal de que bancos centrais ao redor do mundo buscam proteção não contra choques econômicos, mas contra a imprevisibilidade de decisões políticas. A taxa de juros americana deixou de sinalizar apenas a trajetória da inflação; passou a sinalizar também o grau de confiança que os agentes depositam na governança dos Estados Unidos.
Nesse contexto, a afirmação de Galípolo de que o Brasil ganhou “gordura” ao ser conservador é compreensível. Mas a narrativa do “fator externo” merece revisão conceitual. Choques exógenos clássicos — pandemias, desastres naturais, choques de oferta de commodities — são imprevisíveis e não têm endereço. A atual instabilidade tem endereço certo: é produto de escolhas deliberadas de um governo que converteu a política comercial em instrumento de política interna, e que testa os limites das suas próprias instituições de freios e contrapesos.
Mesmo que a aventura no Golfo Pérsico cesse e que as tarifas trumpianas sejam reduzidas, a incerteza estrutural permanecerá enquanto persistir a disposição americana de extravasar tensões políticas domésticas em ações que afetam a ordem econômica global. E Trump já avisou que “Cuba será a próxima”.
Para o Brasil e demais economias emergentes, isso impõe uma conclusão desconfortável: não existe, no horizonte previsível, um ponto de normalização que dissolva esse prêmio de risco. A política monetária brasileira reagirá em seu fator externo, por tempo indeterminado, não ao mundo — mas às decisões de um único país consigo mesmo. E mudanças de governo não necessariamente trazem redução da disfuncionalidade política americana, que frequentemente transborda para aventuras militares globais.
A recomendação, portanto, é que o debate público sobre juros no Brasil incorpore essa distinção. Tratar o problema como “externo” adia a necessidade de construir respostas estruturais: diversificação de parcerias comerciais, redução da exposição cambial ao dólar e fortalecimento de mecanismos multilaterais de governança. O fator externo está lá. Mas ele tem passaporte.
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