Denys Roman, aluno do Doutorado Profissional em Administração da FGV.
A partir de 2027, conforme exigência da Resolução CVM 193 de 2023, as empresas de capital aberto no Brasil adotarão as novas normas de divulgação de informações financeiras de sustentabilidade IFRS S1 e S2, no Brasil oficialmente denominadas CBPS 01 e 02. Essa nova demanda regulatória responde a críticas recorrentes aos padrões atuais de relatórios de sustentabilidade, vistos como narrativas positivas com baixa conexão com elementos financeiros relevantes para investidores.
A Lojas Renner se antecipou e, em julho de 2025, publicou voluntariamente o Relatório de Informações Financeiras Relacionadas à Sustentabilidade de 2024. O documento apresenta dados qualitativos e quantitativos, buscando mostrar como questões climáticas já impactaram seus resultados e como podem afetar o negócio nos próximos anos. O relatório foi revisado por auditor externo, aumentando sua credibilidade e reduzindo vieses.
As normas determinam que as companhias expliquem como tratam temas materiais em quatro dimensões: Governança, Estratégia, Riscos e Métricas, e por fim Metas. Neste primeiro ciclo, a Renner utilizou a permissão de focar apenas nos riscos e oportunidades relacionados a clima, embora saibam que, a partir do segundo ano de reporte obrigatório, todos os temas com materialidade financeira deverão ser reportados.
Para avaliar o relatório, utilizei o framework de avaliação e diagnóstico organizacional do Banco Interamericano de Desenvolvimento de 2002, que contempla: Capacidade Organizacional, Motivação Organizacional, Ambiente Externo e Desempenho Organizacional.
A capacidade organizacional foi evidenciada com uma estrutura de governança climática, abrangendo o Conselho de Administração, os Comitês de Auditoria e Gestão de Risco e o de Sustentabilidade (ambos ligados diretamente ao Conselho), além das Diretorias de Riscos, de Controladoria e a de Gente e Sustentabilidade. Complementam esse pilar os processos de gestão de riscos baseados em padrões internacionais, o inventário de emissões de gases de efeito estufa verificado por terceira parte há mais de dez anos e investimentos em energia renovável e circularidade.
Demonstrando a motivação organizacional, temos o compromisso de longo prazo que inclui neutralidade climática até 2050, metas de redução de emissões próprias e da cadeia de fornecedores, e a integração da sustentabilidade à missão corporativa (“ser ecossistema sustentável referência em moda e lifestyle”). Outro aspecto é a vinculação das metas climáticas à remuneração variável de executivos.
A Renner analisa cenários climáticos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), avaliando riscos físicos (ondas de calor, inundações, secas, incêndios) e de transição (precificação de carbono, matérias-primas sustentáveis). Destaca também seu engajamento em fóruns nacionais e internacionais de sustentabilidade, sua capacidade de articulação e alinhamento com práticas globais, comprovando conexão com o ambiente externo.
Seu desempenho organizacional é apontado pela mensuração de impactos financeiros. Em 2024, a empresa relatou perdas de R$ 10 milhões com inundações e R$ 18 milhões com ondas de calor, além de ganhos de R$ 34 milhões com energia renovável e R$ 94 milhões com produtos sustentáveis. A análise mostra que as ondas de calor afetaram mais as coleções de moda do que as inundações no Rio Grande do Sul, evidência que dificilmente apareceria nas demonstrações financeiras tradicionais.
No horizonte de dez anos, as projeções apontam perdas entre R$ 85 e R$ 99 milhões e ganhos entre R$ 424 e R$ 488 milhões. Esses números, somados a avanços em circularidade, eficiência energética e qualificação de fornecedores, demonstram o desempenho organizacional e reforçam a relevância da agenda climática para o negócio.
A análise do relatório sob o framework do BID também permite conectar fatores transformacionais (liderança, missão e cultura) e transacionais (estrutura, práticas e sistemas), ressaltando o papel do ambiente externo na motivação e no desempenho. Um ponto positivo de transparência foi a declaração de que a companhia não apresentou dados quantitativos sobre determinadas oportunidades de tecnologia por falta de informações centralizadas, aspecto que dialoga com questões metodológicas relevantes como validade dos dados, combinação de fontes qualitativas/quantitativas e riscos de viés em autoavaliações.
Para avançar, recomenda-se à Renner aprofundar as análises financeiras, detalhando como as estratégias de transição influenciarão margens, competitividade e criação de valor de longo prazo.
O novo formato de relatório, alinhado às normas IFRS/CBPS, mostra-se útil não apenas para uma empresa líder no varejo de moda, mas também como referência para outras companhias, abertas ou fechadas, compreenderem melhor seus riscos e oportunidades. Para investidores, sobretudo de perfil de longo prazo, torna-se cada vez mais evidente que informações de sustentabilidade não podem ser desconsideradas na avaliação do desempenho financeiro futuro.
Texto originalmente publicado no blog Gestão e Negócios do Estadão, uma parceria entre a FGV EAESP e o Estadão, reproduzido na íntegra com autorização.
Os artigos publicados na coluna Blog Gestão e Negócios refletem exclusivamente a opinião de seus autores, não representando, necessariamente, a visão da Fundação Getulio Vargas ou do jornal Estadão












