Por Alexandre Pignanelli, André Alves, Alexandre de Vicente Bittar: engenheiro; professor no Ibmec-SP e Luiz Carlos Di Serio.
Quando pensamos em indústria automotiva, logo imaginamos montadoras, inovações tecnológicas e novos modelos de carros elétricos. Mas existe um elo essencial, muitas vezes invisível, que sustenta toda essa engrenagem: as ferramentarias — empresas responsáveis por produzir moldes e ferramentas que dão forma às carrocerias, portas e componentes que saem das linhas de produção.
O problema é que esse elo está enfraquecido. O Brasil representa menos de 1% do mercado global de ferramental, importa metade das ferramentas que utiliza e 100% dos moldes de grandes peças e superfícies Classe A — justamente aquelas que definem o acabamento e a qualidade visual dos automóveis. Isso significa mais custos, prazos mais longos e perda de competitividade.
Se quisermos uma indústria automotiva forte, precisamos fortalecer quem está por trás dela. Foi com essa visão que nasceu o projeto Ferramentarias Brasileiras Mais Competitivas, dentro do Programa Rota 2030, coordenado pela Fundep e pelo IPT. A iniciativa reúne governo, universidades e empresas em uma grande rede de pesquisa aplicada, inovação e capacitação baseada em 4 fases.
Fase 1 — As forças competitivas em jogo
O primeiro diagnóstico envolveu 39 ferramentarias e revelou um cenário de desafios estruturais.
Falta investimento, atualização tecnológica e qualificação de mão de obra.
A concorrência com produtos importados é avassaladora e o poder de barganha dos clientes (montadoras e sistemistas) é altíssimo — poucas empresas concentram os pedidos, ditando preços e prazos.
Paradoxalmente, do lado dos fornecedores, o problema é o oposto: há poucas opções nacionais e uma forte dependência de insumos e tecnologias importadas, o que limita o poder de negociação das ferramentarias.
O estudo também acendeu um alerta: novas tecnologias como manufatura aditiva podem, em breve, substituir parte dos processos atuais. Ou seja, é urgente investir em diferenciação, inovação e resiliência diante da competição global.
Fase 2 — O que os clientes pensam
Conduzida pela FGV EAESP, a segunda fase trouxe o olhar do mercado. Montadoras e sistemistas avaliaram 13 atributos-chave — como qualidade, custo, confiabilidade e prazo — em uma matriz Importância–Desempenho.
O resultado mostrou que algumas capacidades estão no nível esperado, mas outras exigem melhorias imediatas. O diagnóstico virou um mapa de prioridades, orientando onde o setor deve concentrar seus esforços para competir de igual para igual no mercado internacional. Veja os resultados da Fase 2 aqui.
Fase 3 — A visão das próprias ferramentarias
Sob as dimensões de prioridades competitivas, desempenho percebido e maturidade em supply chain, a terceira fase mostra um desalinhamento preocupante: muitas empresas acreditam ser mais competitivas do que seus clientes realmente percebem. Esse “autoengano estratégico” mascara fragilidades importantes — como a falta de gestão integrada de fornecedores, baixo controle de fluxo produtivo e pouca previsibilidade da demanda.
Mais do que tecnologia, o setor precisa de gestão moderna e mudança cultural, incorporando práticas colaborativas e foco em eficiência de processos. Confira os resultados da Fase 3.
Fase 4 — Dos diagnósticos à ação
Na última fase, os aprendizados se transformaram em prática com os projetos demonstradores. Esses pilotos mostraram na prática o “ciclo vicioso” que trava o setor:
- prazos de pagamento longos geram falta de caixa;
- isso limita investimentos em tecnologia;
- atrasos se acumulam e novos pedidos se perdem.
Para romper esse ciclo, surge o programa Demonstradores 2.0, que propõe um novo modelo colaborativo: em vez de cada empresa fazer tudo, cada uma se especializa em uma etapa do processo, conectadas por uma plataforma digital que integra padrões, comunicação e gestão de dados em tempo real.
Onze subprojetos estruturam essa nova fase. A conexão com o Conecta+ amplia o acesso de pequenas e médias empresas à formação gratuita e às jornadas de inovação. O futuro das ferramentarias brasileiras passa, portanto, por colaboração, digitalização e redes inteligentes de produção.
Colaboração, inovação e velocidade: a rota para 2030
O projeto mostra que o modelo atual está esgotado. A sobrevivência das ferramentarias — e, por consequência, da cadeia automotiva — depende de uma reinvenção coletiva, baseada em especialização colaborativa, plataformas digitais e gestão moderna.
Para as empresas, a escolha é clara: continuar presas ao ciclo da baixa competitividade ou adotar um novo modo de operar, mais aberto e integrado. Para os formuladores de políticas públicas, o desafio é manter instrumentos de incentivo e capacitação que deem fôlego à transformação. E para as montadoras, é hora de repensar modelos de contratação que pressionam custos, mas corroem a base produtiva do país.
A revitalização das ferramentarias brasileiras não virá de soluções isoladas, mas de uma transformação estrutural, sustentada por gestão, tecnologia e cooperação em rede. Essa é a rota necessária para recolocar o Brasil no mapa global da competitividade automotiva. Assista à apresentação dos Demonstradores 2.0.













