A expressão “Guerra Fria 2.0” tem sido usada com frequência para interpretar as relações diplomáticas e comerciais entre China e Estados Unidos no século XXI. No entanto, uma pesquisa recente da FGV EAESP mostra que essa comparação simplifica um cenário muito mais complexo. Embora o discurso político esteja mais duro e a rivalidade geopolítica tenha aumentado nos últimos anos, os dados revelam uma forte interdependência econômica entre as duas potências, o que distancia a realidade atual daquela vivida durante a Guerra Fria do século XX.
O estudo foi conduzido pelos pesquisadores Alexandre Abdal e Douglas Meira Ferreira, da FGV EAESP, e publicado na Brazilian Journal of Political Economy. Os autores combinaram análise histórica das relações diplomáticas entre China e Estados Unidos com dados de comércio internacional, observando padrões de importação e exportação ao longo das últimas décadas. O objetivo foi comparar a relação atual com a dinâmica da Guerra Fria do século XX e avaliar se essa analogia faz sentido do ponto de vista econômico e histórico.
Relações diplomáticas e comerciais entre China e Estados Unidos
Apesar da crescente animosidade diplomática, especialmente na última década, os dados mostram que China e Estados Unidos seguem profundamente conectados economicamente. Diferentemente da Guerra Fria entre EUA e União Soviética, quando havia economias praticamente separadas, hoje existe uma integração intensa nas cadeias globais de produção, comércio e tecnologia.
Essa relação começou a ser construída nos anos 1970, com a aproximação diplomática simbolizada pelo encontro entre Mao Tsé-Tung e Richard Nixon. Desde então, mesmo diante de crises como a Praça Tiananmen, disputas sobre Taiwan e guerras comerciais, o comércio bilateral continuou crescendo.
A entrada da China na Organização Mundial do Comércio, em 2001, marcou um ponto de virada. A partir daí, o volume de comércio entre os dois países aumentou de forma expressiva. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos passaram a registrar déficits crescentes na balança comercial de produtos manufaturados, enquanto a China consolidou superávits nesse setor, inclusive em produtos de alta tecnologia.
Esse padrão revela uma interdependência desigual. Os Estados Unidos dependem fortemente de importações industriais chinesas, enquanto a China depende de outros países para o fornecimento de commodities e recursos naturais. Ainda assim, essa troca mútua torna um rompimento econômico completo pouco provável nos curto e médio prazos.
Crise do projeto de globalização dos Estados Unidos e ascensão econômica da China
Segundo os autores, chamar essa relação de “Guerra Fria 2.0” cria mais confusão do que clareza. A metáfora ignora o contexto histórico atual, desconsidera a integração econômica existente e leva analistas a interpretar fenômenos novos com conceitos antigos. Além disso, uma verdadeira Guerra Fria pressupõe isolamento econômico e blocos rivais bem definidos, o que não acontece no mundo atual.
Sendo assim, a pesquisa mostra que a rivalidade sino-estadunidense está ligada à crise do projeto de globalização liderado pelos Estados Unidos após 2008, agravada pela pandemia e por conflitos recentes. Enquanto os EUA adotam medidas mais protecionistas, a China avança com seu próprio projeto de globalização, investindo em infraestrutura e novas instituições internacionais.
Por fim, o estudo conclui que o mundo vive uma fase de competição entre grandes potências em um cenário multipolar, mas não uma nova Guerra Fria. Compreender essa diferença, portanto, é fundamental para evitar diagnósticos simplistas e pensar políticas mais eficazes para a economia global e as relações internacionais.
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