Ísis Fontenele é Mestra em Gestão de Pessoas, Especialista em Psicologia Organizacional, e Doutoranda em Administração profissional na FGV. É consultora em cultura organizacional, liderança e equipes, com experiência em escritórios de advocacia, departamentos jurídicos e empresas no Brasil e no exterior. Formada em Direito e com MBA em Gestão Empresarial pela FGV, é autora do livro Liderança e Cultura Organizacional na Advocacia, e criou a primeira pós-graduação em Gestão para a Advocacia do Brasil. Foi presidente da primeira Comissão de Gestão da OAB(2016-2021), atua como docente na FGV, integra conselhos consultivos de empresas e mantém parceria internacional com a Sustainable Partners, desenvolvendo projetos na Europa e América Latina.
Outubro de 2025, Universidade de Barcelona. Enquanto subia ao palco do Congresso Internacional do CONSINTER, levando o tema Liderança e Cultura Organizacional no contexto da Dimensión Social y Económica de La Justicia, carregava comigo um simbolismo que ia além do tema da minha palestra. Era a única mulher latino-americana entre os conferencistas, representando o Brasil em um espaço tradicionalmente dominado por vozes masculinas e europeias. Aquele momento capturava perfeitamente a essência do que fui compartilhar: estamos vivendo uma transformação profunda na forma como lideramos e construímos organizações – e essa mudança está sendo impulsionada por valores que muitos ainda consideram “suaves” demais para o mundo dos negócios.
O que tenho observado, tanto na advocacia quanto em outras searas corporativas, é uma mudança de paradigma silenciosa, porém irreversível. As novas gerações não estão apenas buscando empregos – estão em busca de alinhamento existencial. Dados do Workmonitor 2024 da Randstad revelam que 61% dos jovens profissionais privilegiam valores pessoais sobre estabilidade financeira quando escolhem onde trabalhar. A pergunta deixou de ser “quanto vou ganhar?” para se tornar “que propósito vou servir?”.
Nos escritórios e empresas onde atuei como consultora, testemunhei práticas que seriam impensáveis há uma década. Em um escritório de advocacia de médio porte em São Paulo, implementamos comitês de cultura formados por uma mistura intencional de sócios seniores, advogados júniores e estagiários. O resultado foi um laboratório vivo de transformação organizacional. De mentorias reversas – onde os mais jovens ensinam sobre diversidade geracional e tecnologia – até a revisão transparente dos critérios de bonificação, cada iniciativa reforçava um mesmo princípio: hierarquia não deve sufocar voz.
Os números comprovam que essa não é apenas uma tendência “bonitinha”. A Harvard Business Review reporta que organizações com culturas baseadas em valores claros registram 30% menos rotatividade e 20% mais produtividade. Edgar Schein, referência em cultura organizacional, nos lembra que a cultura é o DNA invisível que determina como as pessoas realmente se comportam quando ninguém está olhando. Já Richard Barrett demonstra em seus estudos que empresas guiadas por propósito não só são mais éticas – são mais lucrativas e resilientes.
Uma das experiências mais marcantes que vivenciei foi com um grupo de jovens advogados que criou o “Propósito em Movimento”. Mensalmente, cada equipe compartilhava histórias reais de impacto social gerado por seu trabalho – desde casos pro bono que transformaram comunidades até pequenas vitórias que restauraram dignidade. O que começou como um exercício de reconhecimento tornou-se um antídoto poderoso contra o cinismo corporativo. As pessoas redescobriram o significado do que faziam.
Essa mudança reflete um fenômeno geracional mais amplo. A pesquisa Global 2024 da Deloitte com as gerações Z e Y mostra que mais de 70% dos profissionais jovens priorizam trabalhar em empresas com compromissos genuínos com ética, diversidade e impacto social. Eles não querem ser peças em uma máquina, mas cocriadores de algo significativo.
Minha presença em Barcelona como mulher brasileira nesse espaço não era apenas simbólica. Era a materialização dessa transformação em curso. A justiça organizacional, como definida por Colquitt e outros pesquisadores, nasce da percepção coletiva de equidade, respeito e transparência. Quando abrimos espaço para vozes diversas – sejam de gênero, geração ou origem – não estamos apenas sendo “politicamente corretos”. Estamos construindo alicerces mais sólidos para a inovação e a sustentabilidade empresarial.
O que aprendi, tanto na prática consultiva quanto na acadêmica, é que a verdadeira revolução não acontece em grandes anúncios ou disrupturas espetaculares. Ela mora nos detalhes: no comitê de cultura que ousa questionar processos arcaicos, na liderança que escolhe escutar antes de decidir, na coragem de tornar transparente o que sempre foi obscuro.
Enquanto conversava com profissionais de diferentes países após minha palestra em Barcelona, percebi que, embora nossos contextos fossem diversos, o anseio era universal: criar organizações onde pessoas possam florescer enquanto produzem excelência. Essa talvez seja a equação mais importante do management contemporâneo – e ela está sendo escrita não nos manuais tradicionais, mas nas experiências cotidianas de líderes corajosos que entendem que justiça não é apenas um ideal abstrato, mas uma prática organizacional concretamente lucrativa.
A revolução silenciosa já começou. Ela não vem com slogans grandiosos, mas com a constância de líderes que preferem inspirar a comandar, que valorizam propósito além do profit, e que compreendem que o sucesso sustentável é sempre coletivo.
Referências
Barrett, R. (2017). The Values-Driven Organization: Cultural Health and Employee Well-Being as a Path to Profit. Routledge.
Colquitt, J. A., Conlon, D. E., Wesson, M. J., Porter, C. O., & Ng, K. Y. (2013). Justice at the Millennium: A Meta-Analytic Review of 25 Years of Organizational Justice Research. Journal of Applied Psychology, 98(2), 199-236.
Deloitte. (2024). Gen Z and Millennial Survey. Retrieved from https://www.deloitte.com
Harvard Business Review. (2023). Why Culture Is the Key to Business Success. Retrieved from https://hbr.org
Randstad. (2024). Workmonitor 2024: The pursuit of purpose and well-being. Retrieved from https://www.randstad.com
Schein, E. H. (2010). Organizational Culture and Leadership (4th ed.). Jossey-Bass.
Texto originalmente publicado no blog Gestão e Negócios do Estadão, uma parceria entre a FGV EAESP e o Estadão, reproduzido na íntegra com autorização.
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