Douglas Stellato Neto, Aluno do Doutorado Profissional em Administração da FGV EAESP e executivo de Finanças.
A história não pode ser contada apenas por guerras, invenções ou grandes líderes. Há um fio menos visível, porém decisivo, que atravessa civilizações: a necessidade de registrar, controlar e planejar recursos escassos. Antes mesmo de existir o conceito formal de dinheiro, já existia a função financeira. E, com ela, o seu protagonista: o “guerreiro das finanças”.
Nas sociedades rudimentares, muito antes da escrita formal, surgiram os primeiros registros contábeis. Tábuas de argila na Mesopotâmia, marcas em ossos e pedras, símbolos primitivos que indicavam estoques de grãos, rebanhos, tributos e trocas. A contabilidade nasce como instrumento de sobrevivência coletiva, permitindo planejar períodos de escassez, organizar trabalho e sustentar hierarquias. Onde havia excedente, havia controle. Onde havia controle, havia poder.
Com o avanço das civilizações, a função financeira se sofisticou. Nos templos egípcios e mesopotâmicos, sacerdotes acumulavam não apenas autoridade espiritual, mas também conhecimento econômico. Administravam tributos, armazenavam alimentos, financiavam expedições e obras públicas. O “contador” era, muitas vezes, um homem sagrado. Essa associação entre finanças, ética e responsabilidade não é acidental, ela acompanha a história até hoje.
Na Idade Média, com o renascimento do comércio, surgem novas figuras centrais. Frades administravam mosteiros autossuficientes, controlando terras, colheitas, doações e empréstimos. Ao mesmo tempo, os caixeiros viajantes conectavam regiões, levando mercadorias, crédito e informação. Eles precisavam confiar na palavra, na memória e, progressivamente, em registros escritos. A mobilidade do comércio exigia método. E o método exigia contabilidade.
É nesse contexto que, no Renascimento, ocorre um salto estrutural. Em 1494, Luca Pacioli sistematiza o método das partidas dobradas, formalizando algo que comerciantes já praticavam de forma intuitiva. Débitos e créditos passam a refletir uma lógica de equilíbrio, responsabilidade e rastreabilidade. Não era apenas uma técnica contábil: era uma nova forma de enxergar o mundo econômico, baseada em simetria, causalidade e disciplina. A partir dali empresas deixaram de ser apenas iniciativas comerciais e passaram a ser organizações gerenciáveis.
Com a Revolução Industrial, o guerreiro das finanças muda novamente de campo de batalha. O crescimento das fábricas, a separação entre propriedade e gestão, a necessidade de financiamento de longo prazo e o surgimento dos mercados de capitais tornam o controle financeiro uma função estratégica. Crises e quebras de bolsa, de 1929 ao colapso de 2008, expõem fragilidades, forçam aprendizados e redefinem o papel do profissional financeiro. Cada crise gera um novo salto de sofisticação: normas contábeis, auditorias independentes, regulação, governança e gestão de riscos.
É nesse ambiente que, ao longo do século XX, emerge a figura do executivo de finanças (e de seus fiéis escudeiros especialistas), bem como a do investment banker (com espada mais afiada, porém de armadura mais fina!). Inicialmente focado em contabilidade, compliance e controle, o CFO passa gradualmente a ocupar como parte integral do centro da estratégia corporativa. O profissional de finanças deixa de ser apenas o “guardião dos números” e se torna o intérprete da realidade econômica da organização, conectando operações, investimentos, riscos e visão de longo prazo.
Nas últimas décadas, essa transformação se acelerou de forma exponencial. A digitalização, os sistemas integrados, o big data, a inteligência artificial e a automação redefiniram processos, mas também expectativas. Nosso guerreio contemporâneo atua como estrategista, tradutor entre tecnologia e negócios, gestor de capital humano e financeiro, interlocutor de investidores, reguladores e conselhos. Ele precisa compreender não apenas balanços, mas também algoritmos, cadeias globais de valor, sustentabilidade, geopolítica e cultura organizacional.
O guerreiro das finanças moderno luta em múltiplas frentes: eficiência operacional, crescimento sustentável, compliance regulatório, inovação, gestão de crises e preservação da confiança. Em um mundo volátil, incerto, complexo e ambíguo, as decisões financeiras tornaram-se mais rápidas, mais expostas e mais irreversíveis. O erro custa caro. A omissão, mais ainda.
Ao mesmo tempo, a função financeira retorna, curiosamente, às suas origens éticas. Transparência, responsabilidade, prestação de contas e confiança voltam ao centro do debate, agora ampliadas por temas de governança corporativa, sustentabilidade e impacto social. Assim como os antigos sacerdotes e frades, o profissional de finanças volta a ser mais do que nunca cobrado não apenas por eficiência, mas por integridade e responsabilidade.
Olhando para o futuro, o guerreiro das finanças continuará se reinventando. O dinheiro torna-se programável, os ativos se tokenizam, as fronteiras entre finanças, tecnologia e estratégia se dissolvem. Mas o núcleo da função permanece inalterado há milênios: organizar recursos escassos para viabilizar projetos humanos.
Da contagem de grãos ao planejamento estratégico global, das tábuas de argila aos dashboards em tempo real, a jornada das finanças é, em essência, a jornada da civilização tentando dar ordem ao caos. O profissional de finanças sempre esteve lá, invisível para alguns, decisivo para todos. Um verdadeiro guerreiro, não armado de espadas, mas de números, método, visão e responsabilidade.
Texto originalmente publicado no blog Gestão e Negócios do Estadão, uma parceria entre a FGV EAESP e o Estadão, reproduzido na íntegra com autorização.
Os artigos publicados na coluna Blog Gestão e Negócios refletem exclusivamente a opinião de seus autores, não representando, necessariamente, a visão da Fundação Getulio Vargas ou do jornal Estadão













