A pesquisa do professor Amon de Barros, da FGV EAESP, publicada na revista Management Learning, propõe uma reflexão essencial: como o ensino de gestão pode ser mais relevante, inclusivo e conectado com a realidade? Para isso, o estudo defende que conhecimento em gestão não é neutro, mas sim político e influenciado pelos contextos sociais nos quais é produzido. Assim, compreender essa característica é fundamental para formar líderes capazes de lidar com um mundo cada vez mais complexo.
Para desenvolver essa discussão, o autor realizou uma revisão de literatura, reunindo contribuições da pedagogia crítica, da teoria do ponto de vista e de reflexões sobre a geopolítica do conhecimento. O objetivo foi entender como essas perspectivas ajudam a repensar o ensino da gestão e, ao mesmo tempo, esclarecer como modelos tradicionais deixam de fora experiências de grupos diversos.
Uma das ideias centrais da pesquisa é que modelos tradicionais de educação em gestão ainda seguem padrões dominantes produzidos nos Estados Unidos e na Europa. Isso limita a compreensão de realidades distintas, especialmente no Sul Global. Embora esses modelos sejam amplamente disseminados, eles não representam toda a diversidade presente no mundo das organizações. Assim, ao reconhecer que o conhecimento é situado, abre-se espaço para práticas que valorizem diferentes contextos, histórias e trajetórias de vida.
Como repensar o ensino em gestão: conhecimento é político e precisa ser contextualizado
O estudo também destaca a contribuição de Paulo Freire, cuja visão sobre educação como um processo de diálogo e construção coletiva inspira mudanças importantes. Em vez de uma abordagem em que o professor apenas “transfere” conteúdos, a pedagogia freireana propõe que estudantes participem ativamente, questionem as teorias e relacionem os conceitos às suas próprias experiências. Segundo o artigo, essa postura estimula a consciência crítica, elemento essencial para compreender contradições sociais e, portanto, tomar decisões mais responsáveis.
Além disso, o texto mostra que uma gestão realmente eficaz depende da capacidade de analisar problemas de diferentes ângulos. Isso não é possível quando apenas uma visão dominante se apresenta em sala de aula. Quando professores convidam estudantes de diferentes realidades a contribuir, amplia-se a criatividade, a qualidade da reflexão e a possibilidade de gerar soluções inovadoras.
Outro ponto importante é que muitas carreiras de futuros gestores acontecerão fora dos grandes centros econômicos ou em organizações menores, públicas ou comunitárias. Assim, a pesquisa reforça a necessidade de uma formação que os prepare para enfrentar desafios variados, desde desigualdades estruturais até questões éticas cada vez mais presentes nas decisões empresariais.
Por fim, a pesquisa conclui que reconhecer a dimensão política e contextual do conhecimento transforma a educação em gestão. Em vez de apenas transmitir conceitos consolidados, ela passa a estimular perguntas melhores, debates mais ricos e práticas mais inclusivas. Dessa forma, abre-se espaço para uma formação mais humana, reflexiva e preparada para lidar com os grandes desafios do século XXI.
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