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IA e o Futuro do Trabalho: Mais Eficiência ou Menos Liberdade?

30 de outubro de 2025
IA e o Futuro do Trabalho: Mais Eficiência ou Menos Liberdade?

Rafael Tamanini, Aluno do Doutorado Profissional em Administração da FGV EAESP, CEO da Volix.

Em 1811, grupos de artesãos ingleses incendiaram máquinas têxteis industriais em protesto contra o que, para eles, representava a perda de valor e espaço no mundo do trabalho. A relação entre tecnologia e trabalhadores raramente é harmoniosa nos momentos iniciais de grandes transformações e a história está repleta de exemplos disso. Hoje, diante de um avanço tão disruptivo quanto a Inteligência Artificial, é natural que a tensão retorne. Mas, desta vez, o alcance da mudança parece ser ainda maior e seus impactos, mais profundos e difíceis de prever.

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Se, no passado, a ameaça era visível, como uma máquina que tomava o lugar das mãos humanas, agora ela é invisível, algorítmica e silenciosa. A IA não apenas executa tarefas. Ela recomenda, julga, avalia, orienta, seleciona. E isso muda radicalmente a experiência do trabalhador, especialmente quando decisões antes tomadas por pessoas passam a ser delegadas a sistemas automatizados.

O mundo acadêmico começa a se debruçar sobre essa questão, e os estudos que investigam o impacto da IA na vida dos empregados se multiplicam. E já trazem achados relevantes. Uma linha de pesquisa destaca os efeitos positivos dessa tecnologia, tanto nos processos de automação, em que tarefas repetitivas e operacionais são delegadas às máquinas, quanto na chamada augmentation, quando a tecnologia atua como parceira e amplia a capacidade de análise, decisão e criatividade do funcionário. Treinamentos personalizados com base no desempenho individual, simulações realistas de situações complexas e feedbacks em tempo real são alguns exemplos de como a IA pode ser uma aliada no desenvolvimento profissional.

Por outro lado, cresce a preocupação com os efeitos colaterais dessa transformação. A chamada vigilância conectada tem ampliado, muitas vezes de forma desproporcional, a coleta de dados sobre os funcionários, invadindo a privacidade, monitorando comportamentos físicos e abrindo espaço para práticas sutis, mas concretas, de manipulação e coerção. Nesse cenário, a IA também pode reforçar uma cultura de microgestão, em que tudo é medido, ranqueado e julgado automaticamente, gerando um ambiente de insegurança e pressão constante.

Fato é que a IA chegou para ficar. Assim como em 1811, as novas máquinas não vieram para ser passageiras. Elas vieram para redefinir o trabalho. A grande questão agora não é mais se a IA impactará a vida dos empregados, mas como ela será implementada. O desafio está em garantir que essa transformação seja feita de forma ética, equilibrada e centrada nas pessoas. E essa responsabilidade, mais uma vez, recai sobre os líderes.

O líder pode usar a IA para qualificar a experiência do atendimento ao cliente, liberando os profissionais das tarefas mais mecânicas e repetitivas e permitindo que se concentrem nas interações humanas, onde empatia e escuta fazem diferença. No entanto, também pode seguir por um caminho equivocado, ao substituir completamente esse contato por assistentes artificiais que enfraquecem o vínculo interpessoal e transformam as relações em trocas frias e puramente transacionais.

Sim, cabe a liderança conhecer o potencial da IA, romper as barreiras culturais que ainda travam sua adoção e, acima de tudo, garantir que essa tecnologia seja usada para ampliar, e não sufocar, o protagonismo humano. Ignorar esse papel é abrir espaço para ambientes frios, desumanizados e operados por algoritmos sem discernimento ético. É uma tarefa fácil? Não é. Mas ao assumir essa responsabilidade, os líderes podem, por meio da IA, não apenas impulsionar a produtividade das empresas, como também tornar as relações de trabalho mais humanas, empáticas e significativas.

Texto originalmente publicado no blog Gestão e Negócios do Estadão, uma parceria entre a FGV EAESP e o Estadão, reproduzido na íntegra com autorização.

Os artigos publicados na coluna Blog Gestão e Negócios refletem exclusivamente a opinião de seus autores, não representando, necessariamente, a visão da Fundação Getulio Vargas ou do jornal Estadão

 

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