O consumo de produtos de saúde sexual como contraceptivos e produtos menstruais não depende apenas de renda ou oferta, especialmente entre adolescentes em contextos de vulnerabilidade. Muitas vezes, emoções como vergonha, raiva e medo influenciam decisões de consumo entre adolescentes. O silêncio em torno do tema, somado a tabus e desigualdades, cria barreiras invisíveis que impedem o acesso. Embora produtos e informações estejam disponíveis em muitos casos, isso não garante o uso efetivo, e fatores sociais, culturais e emocionais influenciam diretamente o comportamento do consumidor. Por isso, compreender as barreiras ao consumo de saúde sexual ajuda a desenvolver políticas e estratégias mais eficazes.
É o que mostra um estudo publicado recentemente na revista internacional Marketing Theory por duas pesquisadoras da FGV EAESP, Adriana Guedes Arcuri e Tânia Veludo-de-Oliveira, em parceria com Grechen Larsen, da Durham University Business School. Baseado na tese de doutorado de Adriana Guedes Arcuri o estudo adotou uma abordagem etnográfica e acompanhou adolescentes de 13 a 17 anos em regiões periféricas do Brasil no Piaúi, Maranhão, Bahia e São Paulo. O Trabalho foi feito em parceria com a ONG Plan International. A partir da observação de oficinas promovidas pela ONG, nos projetos Escola de Liderança para Meninas, Adolescente saudável e Pontes para o Futuro, foram conduzidas entrevistas em profundidade e registradas imagens e notas de campo. Ao todo, foram reunidas horas de conversas e observações, o que permitiu compreender como essas jovens vivenciam o consumo (e não consumo) de produtos de saúde sexual e como as atmosferas afetivas funcionam como barreiras para este consumo.
Barreiras ao consumo de produtos de saúde sexual
O estudo mostra que decisões de consumo não seguem apenas a lógica racional. Emoções, atmosferas afetivas e contexto social moldam escolhas o tempo todo. Nos últimos anos, os aspectos culturais e emocionais vêm ganhando espaço na pesquisa qualitativa de marketing.
As atmosferas afetivas que promovem o consumo, por exemplo, são bastante estudadas na literatura de marketing. Entretanto, esta pesquisa mostra uma nova abordagem: como atmosferas afetivas podem inibir o consumo em contextos vulneráveis onde observamos vergonha, medo e raiva. Atmosferas afetivas são as emoções que circulam nos ambientes, e envolvem o entorno, as pessoas e os objetos e são popularmente conhecidas como “vibes”. Foram conceituadas pelo pesquisador da área de Geografia Ben Anderson em 2009, e são amplamente utilizadas na literatura de marketing e turismo, entre outras áreas.
Nesse cenário, as pesquisadoras propõem o conceito de “atmosferas de silêncio” para explicar como essas barreiras surgem, são sentidas e operam. Essas atmosferas afetivas circulam quando o silêncio domina o ambiente. Elas são sentidas como ausências, pausas, silêncios, explicadas como emoções (medo, raiva, vergonha) e se materializam na forma de inibição de conversas ou de uma decisão por silenciar-se, ou não consumir. Diante disso, muitas adolescentes evitam fazer perguntas, buscar informação ou acessar produtos de saúde sexual, mesmo quando estão disponíveis de forma gratuita em postos de saúde, por vergonha ou medo. Injustiças de gênero são então explicadas, quando uma menina sente vergonha e medo ao pegar um contraceptivo no posto de saúde, que embora gratuito e acessível, torna-se inacessível por uma barreira invisível envolta em tabu que inibe a ação de consumir.
Além disso, diferentes fatores sociais reforçam essas barreiras ao consumo de saúde sexual. A interseccionalidade, que combina opressões de gênero, classe social, raça e idade contribui para criar contextos mais restritivos. Assim, o consumo deixa de ser apenas uma escolha individual e passa a refletir desigualdades estruturais.
Outro ponto importante envolve a forma como o silêncio se manifesta. Ele não surge apenas quando ninguém fala. Em muitos casos, ele aparece em ambientes barulhentos, onde mensagens importantes não conseguem chegar com clareza. Isso revela um problema que vai além da informação e envolve a qualidade do diálogo e o desmantelamento de estruturas opressivas.
O silêncio como barreira invisível ao consumo
A falta de educação sexual adequada intensifica essas barreiras. Sem orientação clara, muitas adolescentes associam a menstruação e o próprio corpo a sentimentos de vergonha e medo. Como consequência, elas se sentem inibidas a buscar produtos básicos ou informações confiáveis.
Além disso, a ausência de diálogo em casa, na escola e na sociedade reforça esse cenário. Muitas jovens sentem que não têm espaço para falar ou tirar dúvidas, o que limita ainda mais suas escolhas. Nesse contexto, o silêncio não apenas esconde informações, mas também reduz a autonomia.
Por outro lado, quando o diálogo acontece, o cenário muda. Nas oficinas da Plan International facilitadas por mulheres, o ambiente incentivava perguntas, fortalecia a confiança e ampliava o acesso à informação. As rodas de conversa promovidas nas oficinas demonstram como o diálogo aberto promove o desmantelamento das atmosferas de silêncio. Isso contribui para decisões mais conscientes e melhora o acesso à saúde sexual.
Por fim, o estudo conclui que as barreiras ao consumo de saúde sexual não se limitam a fatores econômicos. Aspectos sociais e emocionais exercem forte influência. Ao reconhecer o papel do silêncio e das estruturas de poder, gestores públicos e organizações podem criar soluções mais inclusivas e eficazes.
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