As fintechs ganharam espaço no mercado financeiro ao oferecer serviços digitais mais rápidos, acessíveis e personalizados. No entanto, uma nova geração dessas empresas tem ampliado essa proposta ao unir tecnologia, inclusão financeira e objetivos socioambientais. Chamadas de fintechs socioambientais, essas organizações buscam atender públicos que tradicionalmente enfrentam barreiras de acesso ao sistema financeiro, como pequenos produtores rurais, comunidades periféricas e grupos em situação de vulnerabilidade.
Nesse cenário, uma pesquisa desenvolvida por Simone Luvizan e Erica Souza Siqueira, da FGV EAESP, e Hélida Norato, da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), investigou como essas empresas funcionam na prática e como conseguem transformar tecnologia em soluções voltadas ao desenvolvimento sustentável. O artigo foi publicado na revista internacional Technological Forecasting and Social Change.
Fintechs socioambientais e inclusão financeira sustentável: tecnologia como ferramenta de transformação social
Para compreender o funcionamento dessas organizações, as pesquisadoras utilizaram a metodologia Design Science Research, que busca construir e avaliar modelos capazes de resolver problemas reais. A partir dessa abordagem, criaram o modelo de Reconfiguração Sociotécnica Equitativa, que analisa como tecnologia e relações sociais se combinam para gerar mudanças.
Depois, as autoras aplicaram esse modelo em dez casos de fintechs brasileiras com atuação em áreas como desenvolvimento socioeconômico, produção rural inclusiva e energia limpa. A análise mostrou que essas empresas não apenas digitalizam serviços financeiros tradicionais, mas redesenham essas soluções a partir das necessidades das comunidades que atendem.
Um dos principais achados é que a tecnologia, sozinha, não garante inclusão. O impacto acontece quando as ferramentas digitais são construídas considerando as experiências, dificuldades e objetivos dos usuários. Assim, essas fintechs criam alternativas que vão além de oferecer crédito ou meios de pagamento: elas buscam fortalecer a autonomia das pessoas e apoiar transformações locais.
Segundo a pesquisa, a proximidade entre os fundadores das fintechs e as causas que pretendem resolver é um elemento importante para essa mudança. Portanto, a compreensão dos desafios enfrentados pelas comunidades influencia diretamente a criação de serviços mais adequados às suas realidades.
Além disso, as soluções analisadas utilizam recursos digitais para reduzir barreiras de acesso. Plataformas online, análise de dados e novos modelos de avaliação permitem atender pessoas que muitas vezes ficaram fora dos critérios tradicionais do sistema financeiro.
Inovação financeira com impacto: desafios e oportunidades para o futuro
Esse debate se torna ainda mais relevante em um momento de transformação do setor financeiro, marcado pelo avanço da regulamentação, pela busca por maior segurança e pela necessidade de fortalecer a confiança nas instituições digitais. Nesse contexto, a pesquisa aponta que modelos de fintechs orientados por impacto podem contribuir para repensar como os serviços financeiros são desenvolvidos.
A principal conclusão é que a inovação financeira pode gerar mudanças mais amplas quando comunidades participam da construção das soluções. Dessa forma, a tecnologia deixa de ser apenas uma ferramenta operacional e passa a atuar como um meio para criar novas possibilidades de inclusão, desenvolvimento e sustentabilidade. Ao analisar as chamadas fintechs socioambientais, o estudo reforça que o futuro dos serviços financeiros não depende apenas de novas tecnologias, mas também da capacidade das organizações de compreender pessoas, territórios e desafios sociais.
Leia o artigo na íntegra.
Nota: alguns artigos podem apresentar restrições de acesso.













