Anderson Cremasco, Doutorando em Administração na FGV EAESP e sócio da CREMAC – Negócios em Saúde
Os hospitais de excelência no Brasil são símbolos de qualidade, com tecnologia de ponta, médicos renomados e atendimento impecável. No entanto, em um setor de saúde em rápida transformação, esses hospitais enfrentam um dilema crítico: como manter sua missão de salvar vidas e promover o bem-estar em um mercado dominado por custos crescentes, concorrência feroz e pressões por eficiência financeira? A governança corporativa tradicional, focada em maximizar lucros e tratar pessoas como meros “recursos”, muitas vezes falha em preservar o propósito social que define essas instituições. A resposta para esse desafio está na teoria de Stewardship, uma abordagem que coloca o compromisso humano e ético no centro da gestão hospitalar.
Imagine um hospital que, dia após dia, transforma vidas com cuidados excepcionais, mas enfrenta dificuldades para equilibrar suas finanças com a missão de cuidar. No Brasil, os Hospitais de Excelência operam em um ambiente complexo, onde a verticalização do setor, a escalada de custos e a concorrência crescente ameaçam sua sustentabilidade. A governança convencional, baseada na teoria de agência, enxerga os gestores como agentes que precisam de supervisão rigorosa e incentivos financeiros para alinhar seus interesses aos dos acionistas. Nesse modelo, pacientes, médicos e funcionários são frequentemente reduzidos a meios para alcançar metas financeiras, comprometendo a essência social da saúde. Como, então, essas instituições podem preservar sua reputação, resultados financeiros e confiança pública sem sacrificar seu propósito maior?
Esse dilema não é apenas operacional, mas profundamente humano. A sociedade espera que os hospitais de excelência sejam mais do que empresas lucrativas – eles devem ser pilares de cuidado, inovação e responsabilidade social. A falha em atender a essas expectativas pode erodir a confiança dos pacientes, desmotivar profissionais de saúde e enfraquecer o impacto social das instituições.
A teoria de Stewardship redefine o papel dos líderes hospitalares. Diferentemente da visão tradicional de governança corporativa, que presume que gestores buscam apenas interesses pessoais e precisam de controles rígidos, essa teoria posiciona os líderes como guardiões confiáveis – ou “stewards” – da missão da instituição. Esses líderes alinham seus objetivos pessoais ao propósito maior do hospital, que é promover saúde, inovação e bem-estar coletivo. Seu compromisso é movido não apenas por metas financeiras, mas por um senso de responsabilidade moral e emocional com todos os envolvidos: pacientes, médicos, colaboradores, fornecedores e a comunidade.
Na prática, a governança corporativa baseada na teoria de Stewardship transforma a gestão hospitalar. Em vez de priorizar apenas o lucro, os líderes focam em criar valor humano e social. Isso significa investir na capacitação contínua de equipes, garantir a segurança e a qualidade no atendimento ao paciente, inovar em tratamentos e tecnologias, e engajar a comunidade em iniciativas de saúde. A sustentabilidade financeira, nesse modelo, não é o objetivo final, mas um meio indispensável para sustentar a missão da instituição. Essa abordagem cria um ciclo virtuoso: a confiança gerada entre os stakeholders fortalece a reputação do hospital, atrai talentos e pacientes, e garante sua longevidade.
É fundamental que os líderes e profissionais de hospitais de excelência reconheçam seu papel crucial na transição da governança corporativa baseada na teoria de Agência para a de Stewardship. Para se tornarem verdadeiros “guardiões” da missão, eles devem ir além da simples busca por metas financeiras.
No Brasil, onde a concentração acionária em hospitais pode levar a decisões que priorizam interesses privados, a governança fundada em Stewardship de uma missão de cuidado é ainda mais crucial. Em um setor onde a confiança pública é um ativo valioso, líderes que agem como guardiões desse propósito de cuidado protegem não apenas os interesses financeiros, mas também a essência ética e social da instituição. Esse agir baseado em Stewardship é um diferencial competitivo difícil de imitar, distinguindo os Hospitais de Excelência de instituições puramente comerciais.
A governança corporativa baseada na teoria de Stewardship é o coração que pulsa nos Hospitais de Excelência que tanto admiramos. Ela permite que essas instituições enfrentem os desafios do mercado sem perder sua essência, transformando pressões financeiras em oportunidades para inovar e cuidar. Mais do que uma estratégia de gestão, é um compromisso ético que redefine o valor gerado pelos hospitais, abrangendo não apenas resultados financeiros, mas também impacto humano e social.
Como sociedade, temos o poder e a responsabilidade de apoiar instituições de saúde que priorizam o cuidado genuíno acima de apenas o lucro. Escolha valorizar hospitais que colocam a missão de cuidar no centro de suas decisões. Exija transparência, ética e compromisso com o bem-estar coletivo.
E você, está pronto para ser um guardião dessa mudança? Reflita: que tipo de organizações você quer apoiar: aquelas que veem pessoas como números ou aquelas que enxergam o cuidado como sua maior missão? A resposta a essa pergunta pode transformar não apenas a saúde, mas o futuro da nossa sociedade.
Texto originalmente publicado no blog Gestão e Negócios do Estadão, uma parceria entre a FGV EAESP e o Estadão, reproduzido na íntegra com autorização.
Os artigos publicados na coluna Blog Gestão e Negócios refletem exclusivamente a opinião de seus autores, não representando, necessariamente, a visão da Fundação Getulio Vargas ou do jornal Estadão












