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Home Blog Gestão e Negócios

Quer Ver Sua Equipe Evoluir? Deixe de Premiar Apenas o Resultado

5 de junho de 2026
Quer Ver Sua Equipe Evoluir? Deixe de Premiar Apenas o Resultado

Eduardo Winston, Doutorando em Administração na FGV EAESP.

Todo líder afirma desejar um time que aprenda depressa, inove e supere desafios. Na prática, porém, muitos constroem exatamente o contrário: ambientes em que o medo de errar paralisa, a criatividade definha e o aprendizado vira exceção. A causa nem sempre aparece nos relatórios de desempenho, pois a raiz desse tipo de ambiente de medo se esconde na cultura da própria organização, por vezes forjada por sistemas de incentivos incongruentes.

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Mesmo entre os estudiosos do assunto, não há uma definição precisa e consensual para “Cultura”. Para contornar essa dificuldade, é muito comum a utilização de metáforas para explicar o conceito, e uma das mais utilizadas é a cultura como uma lente. Por lente, tratamos um artefato extrínseco ao indivíduo, mas também moldado por ele. O indivíduo não enxerga essa lente, mas vê o mundo através dela. No âmbito corporativo, uma definição amplamente aceita de cultura organizacional é a de que se trata de um conjunto de significados compartilhados que orienta a atuação dos indivíduos.

Existem culturas que são mais coercitivas, na medida em que homogeneízam mais acentuadamente os comportamentos, enquanto outras são mais flexíveis e permitem condutas mais heterogêneas dentro do próprio grupo. Seja mais forte ou mais fraca, o fato é que sempre existe uma cultura organizacional, que embora invisível, é fortemente percebida e altamente incorporada pelos indivíduos. Como tal, a cultura organizacional exerce maior influência prática nos comportamentos do que as estruturas tangíveis, como manuais, códigos de conduta, políticas corporativas, organogramas, declarações de valores e até mesmo estratégias explícitas. Em muitos casos, a cultura organizacional é dissonante dos objetivos expressos, se apresentando como um verdadeiro entrave.

Esse é o caso que acontece com organizações que buscam adquirir novas competências, mas na prática exaltam exclusivamente quem “entregou antes do prazo”, “bateu 110 % da meta” ou “gastou menos do que o orçamento”. Transmitem, dessa forma, uma mensagem cristalina: tem valor somente quem acerta o alvo. O recado implícito é igualmente claro: quem erra acaba rotulado como inadequado ou incompetente.

Tal sistema de incentivos tem um efeito tóxico para a aprendizagem. Em um mundo volátil, incerto, complexo e ambíguo (o famoso VUCA), organizações precisam de gente disposta a explorar o desconhecido, testar hipóteses e reconhecer rapidamente o que não funcionou. Mas ninguém se arrisca fora da zona de conforto se cada tropeço custar reputação ou bônus.

Essa primazia do desempenho leva os funcionários a adotarem táticas defensivas. Uma destas táticas é o gaming de projeções. Nele, os profissionais aprendem que é mais valorizado um funcionário que se comprometa em entregar um projeto em seis meses e entregue em cinco, do que outro que se comprometa em entregar o mesmo projeto em dois meses e termine entregando em três. Aqui, vemos a formação do conflito de agência, quando o funcionário passa a negociar internamente prazos com folga, metas mais baixas e orçamentos inchados.

Outro efeito prejudicial de sistemas que valorizam apenas resultados satisfatórios é que eles podem induzir os funcionários a se manterem estritamente dentro de suas zonas de conforto, dado que, em tais situações, é mais fácil garantir desempenhos satisfatórios. Contudo, uma organização que precisa aprender demanda que seus funcionários se debrucem sobre novos conceitos e conhecimentos. Em outras palavras, para criar uma organização que evolua de forma acelerada, é necessário que os funcionários se sintam confortáveis diante de situações novas, que não dominam, para as quais não têm todos os conhecimentos nem todas as respostas.

Por fim, vemos o fenômeno das “desculpas verdadeiras”: justificativas impecáveis que blindam o profissional quando algo dá errado. Elas protegem a imagem individual, mas desperdiçam a oportunidade coletiva de aprender com o fracasso. Se o objetivo é salvar aparências, a autópsia do erro vira tabu; e ele reaparece em silêncio, de novo e de novo.

Embora estejam presentes em outros países, estas são características marcantes em culturas organizacionais brasileiras. Por que isso persiste, se as pesquisas proclamam o valor das culturas psicologicamente seguras? Porque ajustar incentivos é trabalhoso. Significa elogiar não só o resultado, mas o processo que o antecedeu: quem propôs uma hipótese ousada, trouxe dados que contrariaram a intuição do grupo ou compartilhou lições de uma tentativa malsucedida. Sem esse reconhecimento explícito, os “códigos invisíveis” continuam indicando que falhas são imperdoáveis.

Na próxima reunião de resultados, experimente perguntar: “O que aprendemos neste projeto que servirá no próximo?” Se a resposta trouxer boas histórias, sobre erros inclusive; é sinal de que sua cultura começa a premiar o aprendizado, não apenas o placar. Em um universo onde o conhecimento caduca em poucos meses, a vantagem competitiva já não é acertar sempre, mas aprender primeiro.

Texto originalmente publicado no blog Gestão e Negócios do Estadão, uma parceria entre a FGV EAESP e o Estadão, reproduzido na íntegra com autorização.

Os artigos publicados na coluna Blog Gestão e Negócios refletem exclusivamente a opinião de seus autores, não representando, necessariamente, a visão da Fundação Getulio Vargas ou do jornal Estadão

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