Por: Luís Henrique Rigato Vasconcellos
Fui abastecer meu carro antigo no sábado como sempre faço nos passeios de final de semana. Tenho um em particular que gosto muito, é uma mercedes 220D (movida a diesel), ano 1972. Adoro esse carro que tem a mesma idade que eu. Quando esses carros não te deixam na mão (o que é raro), essas tardes de outono são especiais para quem gosta de passear ao cair do dia. No posto, uma situação inusitada me chamou a atenção: o preço do diesel está consistentemente mais caro que o da gasolina, a diferença chega a mais de um real por litro, mas parece que ninguém quer falar muito sobre isso.
Lembrei de um passado distante, quando o diesel era muito mais barato. Para se ter uma ideia, em novembro de 1986, a gasolina custava Cz$ 9,77 por litro, enquanto o diesel saía por Cz$ 5,00. A ponto de o governo proibir veículos leves a diesel. Os proprietários das F-1000, como a do “Sinhozinho Malta” em Roque Santeiro, viviam a era de ouro do combustível. Carros movidos a diesel eram um sonho de consumo da garotada que, como eu, já gostavam da tecnologia envolvida no ciclo diesel.
Hoje, a situação se inverteu – e isso é grave. O Brasil tem matriz de transporte dependente do modal rodoviário, e o agronegócio respira diesel. O consumo nacional é imenso: para cada litro de gasolina, consome-se 1,5 litros de diesel. E o pior: precisamos importar volumes gigantescos.
Importação de Diesel
Fonte: ANP |
Diante disso, muitos pensam: “Mas o Brasil é um grande produtor de petróleo agora, estamos tranquilos, certo?”
Errado, em parte…
Mesmo batendo recordes de produção – o petróleo bruto foi o item número um da pauta de exportações em 2025, com US$ 44,6 bilhões –, vivemos um paradoxo perigoso: exportamos nosso petróleo pesado e com alto teor de enxofre (47% para a China) e importamos diesel refinado. Por quê? Porque sempre foi mais lucrativo exportar o nosso e comprar petróleo leve (ou diesel pronto) do que investir em tecnologia para refinar o que temos aqui. É o “curto prazismo” falando alto.
Nossas experiências de investimento em refino também foram desastrosas. A Refinaria Abreu e Lima (RNEST), em Pernambuco, é o símbolo maior. Projetada há mais de duas décadas em parceria com a Venezuela, teria capacidade de 200 mil barris/dia e ficaria pronta em 2011, custando US$ 2,3 bilhões. O resultado? Custou talvez 15 vezes mais, ficou pela metade, parou quase uma década por causa da finada Lava-Jato, e só agora está sendo retomada. Enquanto isso, seguimos importando diesel sob risco geopolítico no Golfo Pérsico.
Mas por que o diesel está tão caro e a gasolina ainda fica abaixo de R$ 7? Entra em cena o que chamo de “efeito caipirinha”.
O Brasil mistura obrigatoriamente etanol na gasolina (hoje cerca de 27% e subindo…). O etanol – que produzimos em abundância com cana – reduz artificialmente a demanda por gasolina pura, “tampando o buraco” do que precisaríamos importar. É uma solução jaboticaba, mas funciona. No diesel, o biodiesel até existe, mas não tem a mesma escala nem impacto.
Portanto, enquanto não resolvermos a questão do refino do nosso petróleo, de nada adianta o orgulho ufanista. Podemos até acreditar em discursos políticos populistas, mas a realidade é outra: continuamos exportando o trigo e pagando caro pelo pãozinho importado. Mesmo que seja regado a caipirinhas deliciosas e passeios de final de semana.
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