Gilberto Porto, aluno do Doutorado Profissional em Administração da FGV EAESP
No clássico filme Tempos Modernos, Charles Chaplin eternizou a imagem de uma empresa como uma máquina, com engrenagens funcionando perfeitamente de uma forma conectada e interdependente com objetivo do desempenho máximo. Contudo, mais de 90 anos depois, será que você está conseguindo olhar o que de fato direciona valor para sua empresa? Você olha além dos aspectos tangíveis entendendo a complexidade dos dias atuais? Medir o valor dos ativos intangíveis pode ajudá-lo não só preservá-los, mas principalmente, potencializá-los nos novos tempos modernos.
Hoje, o valor de uma empresa não depende apenas da eficiência de seus equipamentos e, por isso, é importante medir o desempenho considerando também de três engrenagens invisíveis envolvendo a capacidade das pessoas, o contexto e a estrutura que as organiza e os relacionamentos que conectam tudo isso. Olhar essas três dimensões pode ajudá-lo a entender os fatores que estão impactando, positiva ou negativamente, na geração de performance de sua empresa, e consequentemente, no valor.
O primeiro aspecto que precisamos considerar é a capacidade da sua empresa. E aqui estamos mensurando como as competências, conhecimentos e habilidades da sua equipe que contribuem para a performance. Sua equipe tem os conhecimentos necessários para os desafios de hoje, e especialmente os de amanhã, em tempos de transformação digital e inteligência artificial? Sem esses conhecimentos sua empresa provavelmente terá dificuldades de competir no futuro e perderá capacidade de gerar valor de forma sustentável.
O segundo é o contexto em que o conhecimento pode ser compartilhado, envolvendo a estrutura organizacional e os processos como a empresa está organizada. De nada adianta uma equipe capaz se as funções não estão claras, se tudo está centralizado no líder ou existe pouco espaço para inovação. Medir esses elementos pode gerar bons insights para identificar disfunções e ainda identificar oportunidades de melhoria que pode ajudar a potencializar os talentos da sua equipe.
E o terceiro envolve os relacionamentos e as trocas que geram valor. Pense nas diferentes interações que podem existir na sua empresa como entre líderes e sua equipe, entre colegas, com seus clientes, entre outras. A performance de sua empresa depende da qualidade dessas trocas pois boas relações geram colaboração, confiança e troca de conhecimento.
Como no filme, onde Chaplin acaba cometendo um erro e é engolido pela máquina gerando uma série de problemas que terminam com sua demissão, muitos gestores falham em mensurar e avaliar adequadamente esses aspectos. Especialmente pelo fato dessas dimensões não aparecerem nos relatórios de desempenho corporativo, e assim, acabam sendo negligenciadas em muitos painéis de monitoramento de resultados.
Por isso você deve avaliar constantemente se essas engrenagens também estão bem ajustadas na sua organização para geração de valor. Ou será que algum rangido, mesmo que quase imperceptível, está comprometendo o desempenho ainda que isso não impacte, nesse momento, em queda das vendas ou lucro? Se e quando isso acontecer, talvez já seja tarde demais para reagir. Para evitar que esses fatores se transformem em problemas que prejudiquem o desempenho você pode iniciar preventivamente algumas ações.
A primeira é mapear os desafios que sua empresa está enfrentando, e para cada um deles, identificar quais competências são necessárias para enfrentá-los e se sua equipe as possuí. Como resultado você terá algumas lacunas, a partir da comparação das competências que deveria ter e aquelas que existem hoje, que servirão como insumo para priorização das ações de desenvolvimento como cursos, mentorias ou até benchmarks. Você pode utilizar a informação das notas de uma avaliação de desempenho baseada em competências como indicador útil para medir como os colaboradores estão aplicando essas competências desenvolvidas no dia a dia.
A segunda é identificar os pontos de decisão e identificar onde existem gargalos e como superá-los. A estrutura atual ou os processos dificultam a agilidade nas decisões? Como podemos melhorá-los? Com essa informação será possível fazer alguns ajustes e acompanhá-los por meio de indicadores como tempo médio de execução dos processos.
Já a terceira envolve criar oportunidades de conversas e feedbacks constantes com colaboradores, clientes, parceiros e fornecedores para identificar oportunidades de melhoria e gerar um ambiente de colaboração e confiança. Utilizar alguns indicadores, como o de satisfação medido pelo Net Promoter Score (NPS), pode ajudá-lo a monitorar a evolução dessas ações e seus resultados.
No filme, Chaplin foi engolido pela máquina pois perdeu a visão do todo. Nas empresas, o risco é o mesmo para o executivo que ignora as competências, o contexto e os relacionamentos como fatores de geração de valor. É aí que está a diferença entre sobreviver e prosperar no mundo atual em constante mudança.
Texto originalmente publicado no blog Gestão e Negócios do Estadão, uma parceria entre a FGV EAESP e o Estadão, reproduzido na íntegra com autorização.
Os artigos publicados na coluna Blog Gestão e Negócios refletem exclusivamente a opinião de seus autores, não representando, necessariamente, a visão da Fundação Getulio Vargas ou do jornal Estadão













