Por: Jefferson Lana e Marina Amado Bahia Gama
Conflitos são consequências naturais da interação humana. O ambiente corporativo não é exceção, seja entre sócios ou colaboradores. A teoria da agência oferece uma explicação teórica para esses conflitos, ao propor que seres racionais entrarão em conflitos a partir de duas principais razões. A primeira delas é a assimetria de informação, em que um indivíduo tem acesso a mais dados que outro e esse desequilíbrio gerará tensões. A outra dimensão é sobre a assimetria de interesse, em que, mesmo em posse das mesmas informações, os indivíduos poderão divergir sobre quais suas preferências para decisões futuras a partir de diferentes incentivos individuais.
A governança corporativa surgiu para mitigar essas assimetrias. Mecanismos internos de governança (como conselho de administração e políticas estratégicas de remuneração) e mecanismos externos (auditorias, agências de rating e a mídia) ajudam o ambiente corporativo a equilibrar o poder dos agentes e o acesso às informações. Esse equilíbrio deve se traduzir em uma convergência saudável de esforços que promovam o desenvolvimento corporativo.
No entanto, um ponto importante precisa ser analisado. A teoria da agência pressupõe racionalidade dos indivíduos, mesmo que limitada. Além disso, os modelos teóricos tradicionais se debruçam sobre empresas que possuem sócios e colaboradores com alto grau de especialidade para os negócios. Surge aqui uma limitação desses modelos para lidar com pequenas e médias empresas, principalmente as familiares. Em pequenas empresas, os sócios não são necessariamente especializados em “ser donos”. São pessoas com competências em outras áreas de formação e atuação, mas, muitas vezes desconhecem as competências e as rotinas da propriedade.
Essas limitações dão origem a uma nova dimensão de assimetria, que surge especificamente entre sócios de pequenas empresas, onde é mais tangível: a assimetria de entendimento. Mesmo que a empresa divulgue de forma adequada seus demonstrativos contábeis, nem todos os sócios são capazes de apreciar esses dados da mesma forma. Quando isso ocorre, a assimetria de interesse pode se derivar não de incentivos pessoais racionais, mas da falta de habilidade do indivíduo de compreender o ponto e a estratégia de seu sócio. Logo, a assimetria de interesse se torna uma consequência de um problema anterior: os sócios vão divergir e entrar em conflito pelo simples problema de que um deles não foi capaz de absorver e processar as informações com a mesma expertise de negócios.
O lado bom é que essa assimetria é facilmente resolvida com um antídoto antigo: o conhecimento. Nossa visão é que esse conhecimento não precisa ser uma caminhada solitária e obtusa. Propomos que alguns mecanismos de governança podem contribuir com a mitigação também dessa assimetria. Ou seja, ao invés de terceirizar a resolução do problema para o indivíduo, a empresa pode ser corresponsável pela solução com algumas adaptações simples. Por exemplo, alguns dados mostram que um conselho consultivo pode adotar o papel de mitigador de conflitos ao oferecer um nivelamento de conhecimento de gestão aos membros sócios (e mesmo membros familiares não sócios). Em reuniões de conselho consultivo de empresas com ampla assimetria de entendimento, sugere-se assim que o perfil do(a) conselheiro(a) consultivo(a) contemple também aspectos didáticos e formativos, para promover o desenvolvimento dos sócios.
Empresas pequenas são consequências de muito esforço cotidiano em nível gerencial, o que reduz a capacidade dos agentes no autodesenvolvimento. A governança corporativa poderia não se limitar em oferecer a transparência. Ela poderia também se certificar de que a mensagem está sendo entregue a quem precisa recebe-la.
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