Quando médicos deixam regiões vulneráveis, o que acontece com a saúde da população? Essa foi a pergunta investigada por pesquisadores ao analisar os impactos da saída dos profissionais cubanos do Programa Mais Médicos, em 2018. O episódio afetou mais de 2.800 municípios brasileiros e provocou uma mudança brusca na oferta de atendimento em regiões que já enfrentavam dificuldades históricas para atrair profissionais de saúde.
A pesquisa foi conduzida por Stefan Sliwa Ruiz, Malte Becker, Thomas Hone e Rudi Rocha, da FGV EAESP, e publicada na revista científica Journal of Health Economics. Os pesquisadores analisaram dados mensais de municípios brasileiros entre 2017 e 2019, incluindo consultas médicas, internações, mortalidade, venda de medicamentos e estrutura da rede pública de saúde. O objetivo foi entender como o sistema reagiu após a saída repentina de mais de 8 mil médicos cubanos que atuavam no Sistema Único de Saúde (SUS).
Saída dos médicos cubanos afetou atendimentos
Os resultados mostram que os municípios mais dependentes dos médicos cubanos sofreram uma queda imediata nos atendimentos da atenção primária. As maiores reduções aconteceram justamente em consultas ligadas a doenças que exigem acompanhamento frequente, como hipertensão, diabetes e saúde mental.
Segundo o estudo, as consultas para hipertensão chegaram a cair cerca de 20% logo após a saída dos profissionais. Mesmo meses depois da reposição parcial das vagas, os atendimentos continuaram abaixo dos níveis anteriores.
Por outro lado, os serviços considerados urgentes conseguiram se recuperar mais rapidamente. Atendimentos relacionados à maternidade, infecções e emergências permaneceram relativamente estáveis porque as equipes locais passaram a priorizar casos imediatos e mais graves.
Além disso, muitos pacientes começaram a buscar atendimento em unidades de pronto-socorro para resolver demandas básicas de saúde. Os municípios também ampliaram esse tipo de serviço para compensar a redução nas consultas da atenção primária.
Sistema de saúde mostrou capacidade de adaptação
Apesar da diminuição significativa nas consultas, os pesquisadores não identificaram aumento nas taxas de internação hospitalar ou mortalidade durante o período analisado. Para os autores, isso mostra que os sistemas locais conseguiram se adaptar rapidamente diante da crise.
No entanto, essa adaptação teve um custo importante. Como os serviços passaram a focar urgências e atendimentos imediatos, os cuidados preventivos e o acompanhamento contínuo de doenças crônicas perderam espaço.
Segundo os pesquisadores, esse cenário pode gerar impactos negativos no longo prazo. Problemas como hipertensão e diabetes dependem de monitoramento frequente, prevenção e vínculo entre profissionais e pacientes. Quando esse cuidado é interrompido, aumentam os riscos de agravamento das doenças no futuro.
Para os autores, os resultados ajudam a compreender os desafios enfrentados por sistemas de saúde em regiões vulneráveis e reforçam a importância de políticas públicas capazes de garantir continuidade no acesso à saúde.
Embora os serviços tenham demonstrado capacidade de reação no curto prazo, a pesquisa alerta que a escassez de médicos ainda pode aprofundar desigualdades e comprometer o cuidado contínuo da população mais vulnerável do país.
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Nota 2: Crédito editorial imagem: Joa Souza / Shutterstock.com













