Nos últimos anos, diferentes países passaram a discutir novas formas de organizar o trabalho. Entre essas propostas, a semana de quatro dias nas empresas ganhou destaque porque promete melhorar a qualidade de vida dos funcionários sem reduzir a produtividade. Ao mesmo tempo, muitas organizações ainda têm dúvidas sobre como implementar esse modelo na prática. Afinal, reduzir o número de dias de trabalho exige mudanças na forma de gerir equipes, organizar tarefas e avaliar resultados. Nesse contexto, pesquisadores buscaram entender por que algumas empresas conseguem adotar essa jornada reduzida com sucesso, enquanto outras enfrentam dificuldades.
O estudo foi conduzido por Fernando Deodato Domingos, da FGV EAESP, e Pedro Gomes, da University of London. O artigo foi publicado na revista GV Executivo.
A pesquisa analisou um projeto piloto realizado no Brasil com 19 empresas de diferentes setores, envolvendo 252 funcionários. O experimento seguiu o modelo internacional conhecido como 100-80-100, no qual os trabalhadores recebem 100% do salário, trabalham 80% do tempo e buscam manter 100% da produtividade. Para compreender os resultados, os pesquisadores aplicaram questionários com funcionários em diferentes momentos do projeto e realizaram entrevistas com líderes das empresas participantes.
Semana de quatro dias nas empresas: o que faz esse modelo funcionar
Os resultados mostram que a semana de quatro dias nas empresas pode trazer benefícios importantes. Em muitas empresas do piloto, funcionários relataram maior bem-estar, mais engajamento e melhor equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. Além disso, líderes observaram melhorias em processos internos e no uso de ferramentas tecnológicas.
Entretanto, o sucesso do modelo não depende apenas da redução da jornada. Segundo os pesquisadores, um fator decisivo é a relação de confiança entre gestores e equipes. Empresas que valorizam colaboração, autonomia e objetivos compartilhados tendem a ter melhores resultados. Nesses ambientes, os profissionais se sentem mais responsáveis pelo desempenho coletivo e organizam o trabalho de forma mais eficiente.
Por outro lado, organizações que adotam uma gestão baseada principalmente em controle rígido e fiscalização enfrentam mais dificuldades para adaptar a jornada reduzida. Nessas situações, a pressão por resultados pode aumentar, o que compromete o bem-estar dos funcionários e dificulta a reorganização das atividades.
Outro ponto observado foi a necessidade de revisar processos de trabalho. Muitas empresas reduziram o número de reuniões, criaram períodos de concentração sem interrupções e passaram a usar softwares de forma mais estratégica. Essas mudanças ajudaram a manter o ritmo das entregas mesmo com menos horas de trabalho.
Mudanças na forma de contratação e desafios
O estudo também mostra que a forma como as relações de trabalho são estruturadas influencia o sucesso da semana de quatro dias. Nos contratos transacionais, a relação é baseada em regras rígidas, metas e controle das entregas. Já nos contratos relacionais, prevalecem confiança, cooperação e objetivos compartilhados. Segundo a pesquisa, empresas que operam com práticas mais próximas dos contratos relacionais tendem a ter melhores resultados com a jornada reduzida, pois os funcionários têm mais autonomia para reorganizar o trabalho e manter a produtividade.
Apesar dos resultados positivos, o estudo também mostra que alguns setores encontram desafios maiores. Áreas que dependem de forte coordenação entre equipes ou de prazos muito rígidos, como consultoria e serviços financeiros, precisam adaptar processos com mais cuidado para evitar atrasos ou gargalos.
Ainda assim, a experiência brasileira sugere que a semana de quatro dias pode ser uma alternativa viável para conciliar produtividade e qualidade de vida. Para isso, no entanto, não basta mudar o calendário de trabalho. É necessário construir uma cultura organizacional baseada em confiança, diálogo e colaboração, na qual líderes e funcionários compartilhem a responsabilidade pelos resultados.
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